Entrevista pelo professor Luciano Teixeira, Laboratorio de Politica e Violencia, UECE, Fortaleza
FT: O Senhor Doutor Jonas van Vossole (JvV), é um prazer e uma honra ouvi-lo sobre questões que envolvem a produção de ciência de alto nível e a intervenção política do cientista na sociedade. Muito obrigado por aceitar meu convite.
O senhor doutor é cientista social com mestrado em Economia e Ciência Política, com estudos na Universidade de Ghent e na Universidade de Coimbra, correto?
JvV: Certo.
FT: O senhor doutorou-se pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que é reconhecido por juntar ativistas e investigadores de todo o mundo para produzir um conhecimento para além das epistemologias do Norte global. O senhor considera que a junção entre investigação e ativismo político é prejudicial para as Ciências Sociais e Humanas?
JvV: Pelo contrário, qualquer forma de conhecimento — e, por extensão, qualquer ciência — possui, por definição, uma dimensão social e política, na medida em que produz práticas e saberes com origem e impacto social. A ciência reflete e reproduz relações de poder existentes, mas contém também o potencial para as criticar. Sendo toda a ciência inevitavelmente política, a questão central torna-se a da transparência e da honestidade em explicitar, desde o início, a posição a partir da qual se investiga: estamos a analisar e a produzir conhecimento para manter as relações de poder e conservar desigualdades, ou para as criticar, imaginar alternativas e contribuir para um mundo mais justo?
Enquanto a ciência dominante tende a legitimar a ordem social existente, a crítica social e a filosofia crítica também constituem uma constante ao longo da história do conhecimento. Foi esse tipo de saber que, repetidamente, transformou o mundo e promoveu processos de emancipação social: desde Sócrates, que fundou a filosofia no questionamento do pensamento dominante do seu tempo, passando pela constituição das ciências sociais modernas com a crítica aos efeitos sociais do capitalismo em Marx, Durkheim e Weber, até às abordagens contemporâneas das teorias feministas e pós-coloniais. Considero, assim, que o reconhecimento da articulação entre investigação e ativismo é uma condição fundamental para uma ciência crítica.
FT: O senhor considera-se um marxista, Doutor?
JvV: Sim.
FT: Sendo um marxista, o senhor acredita ser possível responder a alguma questão teórica específica sem um olhar sobre e com a prática social, naquilo que Marx chamou de “crítica-prática”?
JvV: É possível, mas essa resposta representa uma derrota da crítica: trata-se de uma adaptação às normas e ao mundo pré-existente, àquilo que Gramsci designava por senso comum ou pensamento hegemónico. Trata-se de uma resposta conservadora, que é, evidentemente, a mais fácil e indolente.
Ainda assim, há académicos que alegam desenvolver teoria “crítica” sem qualquer envolvimento com a prática social. Trata-se da atividade típica do académico crítico encerrado na chamada “torre de marfim”, que produz conceitos sofisticados para interpretar o mundo, mas sem qualquer aspiração prática de o transformar. Haverá certamente quem se sinta ofendido por esta caracterização; contudo, considero que muito desse fenómeno está presente em críticas oriundas da literatura e da antropologia, dos estudos culturais e, dentro do próprio marxismo, naquilo que ficou conhecido como “marxismo ocidental”.
Muitas dessas correntes têm funcionado como um refúgio académico para ativistas derrotados, onde a análise crítica se limita à teoria pura e se torna contemplativa, em vez de se afirmar como expressão de uma ciência engajada, orientada para a co-construção de conhecimento com as formas de resistência social.
FT: Um teórico pode intervir na prática material e permanecer cientificamente consistente?
JvV: Não só pode, como deve. A consistência científica exige coerência metodológica e um quadro teórico sólido — isto é, um certo grau de objetividade, referências teóricas claras, possibilidade de validação e, embora tal seja contestado por algumas correntes que também reivindicam cientificidade, uma distância epistémica que permita formular conclusões mais abrangentes ou mesmo universais. O que essa consistência nunca pode exigir é neutralidade. É precisamente a existência de um quadro teórico consistente para analisar o mundo que permite identificar as suas contradições e sustentar a crítica.
Por outro lado, o envolvimento político não pode servir de justificação para a falta de rigor científico. Quem assume explicitamente um posicionamento político na sua prática científica — sobretudo quando se trata de uma posição crítica e contra-hegemónica — deve realizar um esforço redobrado na fundamentação e na solidez do conhecimento produzido. Tal posição implica uma responsabilidade acrescida, uma vez que esse trabalho estará inevitavelmente sujeito a um escrutínio mais intenso por parte dos poderes instituídos.
FT: O senhor doutor investiga, financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, os conflitos nas políticas de justiça ambiental na periferia europeia, correto?
JvV: Sim, essa é uma das minhas áreas de investigação. Sou um dos investigadores que coordena o projeto EJMapping, financiado pelo FEDER e pela FCT, centrado no estudo dos conflitos ambientais em Portugal e no sul da Europa. Encontramo-nos atualmente a preparar uma candidatura para articular este trabalho numa rede europeia de investigação, no âmbito das ações COST (Cooperation in Science and Technology).
No âmbito do EJMapping, analisamos de que forma as políticas de transição — quando não acompanhadas por medidas que promovam a participação democrática e a justiça social — tendem a aprofundar desigualdades e a intensificar formas de violência sobre comunidades já estruturalmente vulnerabilizadas. Um dos objetivos centrais da investigação é a produção de conhecimento contra-hegemónico que possa apoiar essas comunidades na sua relação com projetos de desenvolvimento, com o Estado e com grandes empresas, bem como contribuir para o trabalho de ativistas locais. Nesse sentido, o estatuto académico dos investigadores envolvidos pode também desempenhar um papel de visibilização pública e, em certos contextos, de proteção simbólica dos atores sociais envolvidos nos conflitos.
No evento de lançamento do projeto, reunimos mais de 60 representantes do meio académico e de movimentos sociais envolvidos em conflitos ambientais em território português, relacionados com temas como mobilidade, energias renováveis, extrativismo mineiro dito “verde”, planeamento florestal e movimentos climáticos. Desde então, temos recebido vários pedidos de apoio por parte de movimentos sociais, não apenas no plano da articulação e da visibilidade pública, mas também ao nível do apoio técnico e jurídico.
Para além deste projeto e da minha atividade enquanto professor nos programas de doutoramento do Centro de Estudos Sociais, estou igualmente envolvido noutras áreas em que a investigação académica se articula com o envolvimento social e político. O meu principal projeto de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, centra-se na análise da relação entre trabalho, ecologia e relações sindicais, a partir de um quadro teórico inspirado na obra da ativista e filósofa marxista Rosa Luxemburgo e no corpo teórico do eco-marxismo. Trata-se de uma tentativa de reenquadrar, em articulação com sindicatos e movimentos ecológicos, as problemáticas sociais e ecológicas do capitalismo, nomeadamente através da reinterpretação dos conceitos de trabalho, alienação, greve e natureza.
FT: O senhor considera existir recortes de perfis sociais para as vítimas das mudanças climáticas? Ou seja, existem elementos de raça, etnia e classe social que marcam as vítimas mais vulneráveis das mudanças climáticas?
JvV: Em primeiro lugar, não me identifico com o termo vítimas, uma vez que este carrega uma conotação paternalista, individualizante e passiva da violência. Prefiro o termo afetados, por este manter em aberto a dialética entre responsabilidade e subjetividade, bem como o potencial de resistência, de organização coletiva e de agência enquanto sujeitos da sua própria história. Mas é evidente que esses marcadores sociais mencionados – classe, raça e genero – marcam profundamento quem é afectado – mas tambem que tem responsabilidades pelas alterações climáticas e pelos desafios ecológicos em sentido mais amplo.
A nossa principal área científica é hoje designada por Ecologia Política, um campo interdisciplinar que se desenvolveu a partir da geografia – veja autores como Harvey e Swyngedouw – e que se centra no estudo das relações sociais com as dinâmicas ecológicas. Os desafios associados ao Antropoceno e às alterações climáticas — mas não apenas estes — refletem a estrutura profundamente desigual da sociedade contemporânea. A análise empírica demonstra de forma consistente que os grupos mais afetados correspondem às posições mais vulneráveis nas hierarquias globais de poder. Enquanto os países mais ricos são responsáveis pela maior parte da poluição, são os países mais pobres que sofrem de forma desproporcionada com secas, doenças ou cheias. Do mesmo modo, quem vive numa habitação de luxo num condomínio fechado não enfrenta os impactos de cheias ou deslizamentos de terras da mesma forma que quem habita uma moradia precária numa favela situada numa encosta íngreme.
FT: O senhor considera inconveniente para a investigação que os estudiosos tomem posição pública em prol desses afetados?
JvV: Não só não é inconveniente, como é fundamental para o desenvolvimento científico. A consciência das desigualdades sociais tem sido decisiva para o avanço do conhecimento nas últimas décadas. A questão racial, por exemplo, revelou-se central para a compreensão das desigualdades ecológicas nos Estados Unidos, dando origem ao conceito e a uma vasta literatura académica sobre racismo ambiental, sendo o trabalho de Laura Pulido um dos mais frequentemente citados nesse campo.
Mais recentemente, desenvolveu-se também um corpo teórico significativo no eco-marxismo, que sistematizou a análise de classe e o materialismo histórico em articulação com a questão ambiental — dimensões que durante muito tempo foram consideradas incompatíveis. O teórico franco-brasileiro Michael Löwy teve um papel relevante nas formulações iniciais deste campo; entretanto, autores como John Bellamy Foster, Jason W. Moore, Matt Huber, Andreas Malm e Stefania Barca tornaram-se referências centrais nas ciências sociais críticas a partir das suas reflexões sobre classe, capitalismo e alterações climáticas. Também o trabalho recente do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo, tem contribuído com análises importantes nesse debate.
FT: Senhor Doutor Jonas van Vossole, camarada, eu quero agradecer pelo seu tempo e desejar que 2026 seja um ano profícuo. Já aproveito para convidá-lo, logo que possível, para estar entre nós, na Universidade Estadual do Ceará.
Entrevista realizada por escrito, no dia 02 de janeiro de 2026.
https://labipol.com.br/jonas-van-vossole-entrevista-sobre-a-ciencia-e-o-ativismo/?fbclid=IwY2xjawPIcHVleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFyN0h1VXlaYmMxYjBNSU1nc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtW5S82yHO7yFcau2IDHsr3GfSiawA_TJOxHuFdbq6hXxG1F99phH95Wqb4v_aem_ZW3sSbne2NhESxKj1ByhGg