Tuesday, July 28, 2026

Ulmeiro: Capitaloceno: a crise ecológica tem responsáveis e raízes coloniais.

 29 Julho 2026

 Entrevista a Jonas Van Vossole

A reflexão sobre as raízes da crise ecológica conduz inevitavelmente a perguntas sobre o modelo económico que organiza as nossas sociedades, as relações de poder que o sustentam e as alternativas que começam a ganhar forma.

Foi nesse cruzamento entre ecologia, capitalismo e justiça social que conversámos com Jonas Van Vossole, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que desafia algumas das ideias mais comuns sobre a crise ecológica.

Porque é que afirma que não vivemos no Antropoceno, mas no Capitaloceno? O que muda quando apontamos o capitalismo — e não “a humanidade” — como responsável pela crise ecológica?

J: Nos últimos 10 a 15 anos, o termo Antropoceno passou a designar uma nova era geológica, marcada pelo impacto global da atividade humana no meio ambiente, como as concentrações de CO2, microplásticos e poluição. No entanto, esta abordagem é despolitizadora, pois responsabiliza a humanidade como um todo, ignorando duas questões centrais.

Primeiro, um problema histórico: a humanidade existe há pelo menos 200 mil anos, mas os efeitos geológicos observados só ocorrem nos últimos 200 a 500 anos, não sendo justo atribuir a responsabilidade a 99% da história humana.

Segundo, uma questão de justiça social global: não se pode equiparar a responsabilidade de um cacique indígena na Amazónia à de um CEO da ExxonMobil, que, desde os anos 70, conhecia os impactos das alterações climáticas decorrentes do consumo de petróleo. A maioria da população mundial não tem consciência, meios ou responsabilidade sobre esses impactos.

No seu projeto Natureza e Trabalho, defende que sindicatos fortes são parte da solução ecológica. Como vê a relação entre sindicatos e a crise climática?

J: Normalmente, apresentam-se os custos da ação climática como uma troca entre a defesa de postos de trabalho e a sustentabilidade, como se fossem opostos. A minha investigação demonstra que esta oposição é falsa.

Primeiro, trabalho e ecologia não são opostos: o trabalho é, por definição, a interação humana com a natureza. Friedrich Engels já mostrava que a evolução humana — como o homo faber — resultou da interação com o meio ambiente, desde a caça, que possibilitou um cérebro maior, até ao uso de ferramentas, que moldaram os nossos pulgares. Se existe uma oposição entre trabalho e meio ambiente — resulta unicamente da forma como socialmente se divide e organiza o trabalho. A contradição pode ser resolvida por relaçoes de trabalho mais justas. E aí os sindicatos têm um papel central.

A falta desse alinhamento natural deve-se as políticas de esquerda do século XX. Politicamente, as forças alinhadas com a classe trabalhadora no século XX — como o comunismo e a social-democracia — ignoraram por grande medida a ecologia. O comunismo foi associado a desastres ambientais (ex.: Mar de Aral, Tchernobyl), enquanto a social-democracia priorizou o estado de bem-estar nacional, externalizando a crise ecológica para o mundo neocolonial.

Assim, o discurso ecológico foi assumido por classes médias urbanas, que o desvincularam da classe trabalhadora. Nos últimos 30-40 anos, a ecologia foi associada a restrições de consumo e impostos, que afetam principalmente os mais desfavorecidos, reforçando a ideia de que é uma questão de privilégio e não de classe.

A minha pesquisa busca demonstrar que esta separação entre ecologia e classe social é errada.

Ao falar da separação entre “sociedade” e “natureza” como uma invenção do capitalismo, o que é que está realmente em causa?

J: Defendo que o conceito de natureza é uma invenção do capitalismo, assim como a oposição entre natureza e sociedade. Na Idade Média, o “direito natural” (ius naturale) referia-se aos costumes e à vontade divina aplicados à sociedade. Com o Iluminismo e a modernidade (séculos XV-XVI), a filosofia política ocidental passava a basear-se na separação entre natureza e civilização, como se vê em Rousseau, Locke ou Hobbes, que descreviam o estado de natureza como um estado de ignorância, sem leis, associado ao “não civilizado”.

Esta separação justificou a colonização e a acumulação inicial do capitalismo: o “estado de natureza” legitimava a exploração de territórios e povos, como no caso do Novo Mundo, onde a terra era considerada não trabalhada ou os seus habitantes, “naturais”, podiam ser escravizados. Hugo Grotius, precursor do direito internacional, defendia que um território “de ninguém” (terra nullius) podia ser colonizado. E, para Locke, era um dever moral apropriar-se de terras em “estado natural”, caso não fossem sujeitas a trabalho produtivo.

Do ponto de vista da economia política, a natureza é central no capitalismo porque entra na economia como um recurso gratuito. Em termos marxistas, o valor de uso de um objeto (como uma cadeira) resulta da combinação entre trabalho humano e recursos naturais (como a madeira). A natureza, nestes casos, não é paga: é um bem gratuito, como a água ou a terra não apropriada.

Esta lógica estende-se a outras formas de trabalho naturalizado e não remunerado, como o trabalho reprodutivo das mulheres (cuidar da família, criar filhos, cuidar de idosos) ou o trabalho escravo. Durante a modernidade, debateu-se quem era humano: enquanto os indígenas foram reconhecidos como seres humanos (com alma), os africanos escravizados foram considerados recursos naturais, sem alma, para justificar a sua exploração. Daqui surgiu o racismo, que associa pessoas racializadas a uma natureza bruta, sem cultura ou racionalidade.

Até o corpo feminino é visto como natureza, em oposição à norma do investidor racional, desprovido de corporalidade, focado apenas na acumulação e produção.

Nos seus textos procura articular classe, ecologia, género e raça numa mesma análise do capitalismo. Porque considera importante pensar estas lutas em conjunto, em vez de as tratar como problemas separados?

J: Existem duas razões para tratar as diferentes formas de exploração do capitalismo como um conjunto. Primeiro, porque o capitalismo usa a categoria de natureza para diferenciar e explorar partes da população mundial, embora a lógica geral de exploração seja a mesma: um sistema de economia política que gera essas diferenciações.

Do ponto de vista político, é importante rearticular essas lutas. Nos últimos 50-60 anos, especialmente desde maio de 68, as lutas sociais — que antes estavam unificadas sob ideais como socialismo ou anarquismo — passaram a focar-se em identidades em vez de desigualdades estruturais. Movimentos como o antirracismo, feminismo e ecologia separaram-se da questão de classe, levando a agendas concorrentes e, por vezes, usadas umas contra as outras.

A partir dos anos 70, surgiu nos EUA o conceito de interseccionalidade, impulsionado por mulheres negras como Angela Davis, que defendiam a necessidade de articular as diferentes lutas sem ignorar as contradições internas (machismo no movimento negro, racismo no feminismo, etc.). Do ponto de vista materialista, o que une essas lutas é o capitalismo, o sistema económico que gera essas divisões.

É possível enfrentar a crise ecológica sem enfrentar simultaneamente as desigualdades produzidas pelo colonialismo e pelo capitalismo global?

J: A crise ecológica, assim como a questão de género, é uma questão colonial. Simone de Beauvoir já defendia que ser mulher não é uma condição natural, mas uma construção social, moldada pelos papéis que a sociedade atribui para reproduzir a sua estrutura. O capitalismo, como sistema orientado para o lucro (e não para o valor ou crescimento em si), perpetua essa lógica de duas formas principais.

A primeira é a acumulação por expropriação, baseada na colonização, no roubo de recursos gratuitos (como terra, dados ou ADN), que continua até hoje. A segunda é a acumulação expandida, assente no livre contrato e nas forças de mercado, onde a maioria da população é obrigada a vender o seu trabalho para sobreviver, gerando lucro para o capital.

Estas duas lógicas — expropriação e exploração por contrato — são complementares e, por vezes, contraditórias. Por exemplo, quando a classe trabalhadora europeia conquistou direitos sociais no final do século XIX e início do XX, os Estados transferiram a exploração para o exterior, através do colonialismo e das guerras (como a Primeira Guerra Mundial), para compensar a crise de lucro interna.

A mesma lógica imperial aplica-se à ecologia: a ideia de que direitos sociais (como salários mais altos) exigem maior poluição ou expropriação de recursos é falsa. O trabalho não depende apenas de condições sociais, mas também ambientais. John Bellamy Foster, por exemplo, argumenta que as condições da classe trabalhadora na Inglaterra do século XIX — como habitação precária, poluição industrial e falta de higiene — eram não só problemas sociais, mas também ecológicos. Assim, a luta de classes deve integrar tanto as condições sociais como as ambientais, pois são inseparáveis.

Em Portugal, vemos megaparques solares, concessões de lítio e monoculturas florestais avançarem sobre territórios rurais. Quem ganha e quem perde com este modelo?

J: Na última década, surgiu o capitalismo verde, uma nova forma de colonialismo interno que se foca no meio rural para criar um novo setor económico. Este capitalismo verde nasce da contradição entre o capitalismo e as questões ecológicas, como as alterações climáticas, profundamente ligadas à indústria petroleira (energia, fertilizantes, plásticos). A dependência deste setor gerou externalidades como a poluição e as emissões de gases com efeito de estufa.

O capital global procurou rearticular a economia para transformar esta crise em novos mercados e formas de lucro, como os mercados de carbono, que, no entanto, não resolvem a relação entre humanidade e meio ambiente. Pelo contrário, levaram à privatização de recursos comuns, como na Amazónia, onde a imposição de mercados financeiros resultou no roubo de terras indígenas, cercamentos para propriedade privada e expulsão de populações locais.

Outra face do capitalismo verde é a indústria de mobilidade e energia verde, que promove energias renováveis como alternativa ao petróleo. No entanto, soluções como os biocombustíveis (produzidos a partir de óleos e açúcares) consomem grandes áreas na América Latina e África, que poderiam ser usadas para produção alimentar ou preservação natural. Em Portugal, parques fotovoltaicos (no Alentejo e Cova da Beira) e barragens transformam paisagens naturais e habitadas em “desertos de ferro, plástico e betão”, destruindo ecossistemas e comunidades locais, sob o discurso falacioso da sustentabilidade.

A mineração verde, como a extração de lítio no Norte de Portugal, é outra face deste colonialismo. Sob o discurso da transição energética e soberania, esta atividade repete a lógica extrativista e colonial da mineração: destruição de montanhas e rios, violência contra populações afetadas e atuação fora da lei. Historicamente, a mineração era realizada em colónias ou por grupos marginalizados (imigrantes, minorias). Agora, com a Critical Raw Material Act da UE, esta lógica volta-se para a periferia europeia (como Portugal), onde governos contornam leis ambientais e sociais em nome de “bens estratégicos”, priorizando multinacionais em detrimento das populações locais.

Que tipo de alternativas económicas, políticas ou comunitárias podem garantir uma transição energética justa e que não destrua os modos de vida locais?

J: A alternativa ao capitalismo é simples, mas problemática. O capitalismo baseia-se no lucro e é antidemocrático, pois o poder de decisão depende de quem detém o capital, que está distribuído de forma extremamente desigual. Hoje, empresas como a de Elon Musk ou a Amazon concentram trilhões de dólares nas mãos de poucos indivíduos, criando uma disparidade enorme que gera externalidades e falta de representação de interesses.

Enquanto uma minoria com capital controla as escolhas estratégicas da economia global (o que produzir, consumir ou onde investir), a maioria da população mundial não tem impacto económico. Isto é uma ditadura económica, que produz os atuais efeitos socioecológicos.

A alternativa é democratizar o poder de decisão: se todos, desde um indígena na Amazónia até o CEO da ExxonMobil, tivessem o mesmo poder de decisão sobre a produção global, as prioridades mudariam. Seria necessário repensar o uso de recursos energéticos e a articulação das condições de vida a nível global.

Só assim se poderia superar a falsa separação entre economia e ecologia, integrando questões como salários, reformas, acesso à educação e proteção do meio ambiente (ar, recursos para as futuras gerações) num mesmo debate.

Outra coisa que é preciso dizer é que a crença de que o capitalismo é o “fim da história” e que não há alternativas, embora amplamente aceite, é historicamente falsa.

Primeiro, o capitalismo não é eterno: tem apenas 500 anos, enquanto 99,99% da história humana decorreu sob outros sistemas socioeconómicos, sem a relação destrutiva com o meio ambiente que o capitalismo impõe. Além disso, a noção de que a crise ecológica significa o “fim do mundo” não é útil para buscar alternativas. Na realidade, o capitalismo já produziu vários “fins do mundo” ao longo da sua história. Para os incas e aztecas, por exemplo, a chegada do capitalismo no século XVI representou uma catástrofe socioecológica, com genocídios causados por doenças e exploração.

A crise ecológica atual não será o fim da humanidade, mas trará novos conflitos socioecológicos: guerras, migrações e lutas por recursos. Estes conflitos podem, no entanto, dar origem a novos atores e forças capazes de propor alternativas à relação destrutiva do capitalismo com a natureza.

É importante desistoricizar a ideia de que não há alternativas. Jason Moore defende a tese interessante que o próprio capitalismo surgiu de uma crise socioecológica: a Pequena Era Glacial, no final da Idade Média. O arrefecimento climático destruiu a agricultura, provocou fomes e doenças, e levou a guerras que enfraqueceram o feudalismo. A burguesia urbana emergiu como uma nova classe social, substituindo o sistema feudal baseado na servidão e na legitimação religiosa. Assim, uma crise profunda do capitalismo também pode trazer novas forças capazes de transformar a relação da humanidade com o meio ambiente.

Acredita que existe hoje espaço político para uma ecologia popular, democrática e de base trabalhadora? Ou a ecologia continua capturada por elites urbanas?

J: O termo ecologia política surgiu como uma crítica ao discurso ecológico dominante, muitas vezes moralista e despolitizado, capturado por elites urbanas. A ecologia política politiza a questão, revelando as desigualdades e relações de poder por trás da relação entre humanidade e meio ambiente.

Nos últimos anos, a preocupação ecológica mobilizou especialmente os jovens, levando a uma consciencialização política. Por exemplo, o movimento pelo clima, inicialmente focado em pressões moralistas (como a implementação de políticas baseadas no IPCC), evoluiu para uma crítica estrutural e sistémica. Ativistas como Greta Thunberg ou os jovens das marchas climáticas na Bélgica passaram de figuras convidadas para eventos como os G8 ou a ONU a vozes críticas, que perderam centralidade por questionarem o sistema.

A ecologia não pode ser separada de outras lutas sociais. A questão da Palestina, por exemplo, mostrou como as lutas se articulam. No entanto, é provável que mudanças ecológicas venham de movimentos sociais mais amplos, que não tenham necessariamente a ecologia como foco principal, mas que, ainda assim, transformem a relação da humanidade com o meio ambiente.

O discurso ecológico das elites urbanas e académicas muitas vezes desvincula-se das lutas das pessoas desfavorecidas — classe trabalhadora, agricultores, moradores de favelas ou indígenas. No entanto, nestes grupos, a ecologia sempre esteve ligada à luta pela soberania e sobrevivência. Como disse Chico Mendes nos anos 70: “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”. Na Europa, estamos a chegar a conclusões semelhantes às que já existiam no Sul Global, o que é um avanço positivo.

Que mensagem deixaria às comunidades que resistem à mineração, aos megaprojetos energéticos e ao avanço do chamado capitalismo verde?

J: A mensagem principal para as comunidades que resistem ao capitalismo e ao colonialismo verde é de solidariedade. Estas comunidades são a vanguarda da resistência a uma nova forma de colonialismo que, sendo cada vez mais extrativista, afeta a todos. O capitalismo verde está a trazer a lógica colonial de volta para a Europa, especialmente para as zonas rurais, como o Barroso. No entanto, esta lógica de expropriação violenta não se limita à indústria verde: o capitalismo está a abandonar os seus próprios princípios liberais (como o Estado de direito ou a propriedade privada) em favor de uma expropriação direta, escravização e desmantelamento das formas democráticas de convivência.

Esta tendência, agravada pelo aumento do autoritarismo e da extrema-direita, é mais visível nas zonas de sacrifício, mas trata-se de um risco generalizado. Por isso, é fundamental apoiar estas lutas, mesmo para quem não é diretamente afetado. As comunidades sacrificadas precisam de recursos que muitas vezes saíram delas: apoio jurídico, financeiro, e na esfera pública para enfrentar projetos mineiros, montar dossiers jurídicos, e acessar estudos de impacto ambiental.

A articulação entre lutas e a solidariedade são essenciais para que estas comunidades, que estão na linha da frente, possam ter sucesso na sua resistência.

Que mensagem deixaria aos jovens que vivem a crise climática com preocupação e procuram formas de agir, mas sentem que as respostas políticas e económicas continuam muito aquém da dimensão do problema?

J: A minha mensagem para os jovens que sofrem de ansiedade climática é que a ansiedade é a pior das respostas. Ela resulta da falta de perspetivas alternativas: sentimo-nos ansiosos porque não conseguimos ver uma saída. Mas essa ausência de horizonte impede-nos também de agir. Sem esperança, perdemos a capacidade de mobilização e a energia necessária para transformar a realidade.

É igualmente importante relativizar a ideia de que estamos a assistir ao fim do mundo. Enquanto jovens na Europa, muito provavelmente não seremos os primeiros nem os mais diretamente afetados pelas alterações climáticas. Dispomos de recursos e de capacidade de adaptação que muitas outras populações não têm.

A verdadeira ansiedade climática é vivida por quem sofre diariamente os seus impactos materiais: quem vive em aldeias envelhecidas rodeadas de eucaliptos e passa os verões com medo dos incêndios; quem habita em favelas e receia que a casa seja destruída sempre que há chuvas torrenciais. Nesses casos, a ansiedade decorre diretamente das condições de vida.

Já a ansiedade que muitos jovens vivem na Europa é, em grande medida, o resultado de uma construção ideológica da qual também somos vítimas. Em vez de nos paralisar, devemos reconhecer que temos os recursos e, sobretudo, a responsabilidade de contribuir para mudar as coisas à escala global.

Biografia

Jonas Van Vossole é co-coordenador do grupo EcoSoc – Ecologia e Sociedade, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), onde desenvolve trabalho nas áreas da ecologia política, economia política e teoria democrática.Integra igualmente a equipa do projeto EJMapping, que analisa os conflitos ambientais em Portugal a partir da perspetiva da justiça ambiental.

Doutorado em Ciência Política, investiga as relações entre capitalismo, democracia, crise e justiça ecológica, com especial enfoque nas respostas aos desafios sociais e climáticos. É autor do livro Capitalism, Crisis and Democracy (Brill, 2026) e de artigos publicados em revistas internacionais como Capitalism Nature Socialism, Journal of World-Systems Research, Review (Fernand Braudel Center), Critique e Revista Crítica de Ciências Sociais.

O seu percurso académico cruza-se com mais de duas décadas de ativismo em movimentos antirracistas, antiglobalização, pela justiça climática e pelos direitos sociais, experiência que marcou profundamente a sua investigação e reflexão crítica.




Monday, June 22, 2026

O Bangladesh em Portuga

Imigração, Racismo e Invisibilidade Política da Comunidade Sul-Asiática


Uma entrevista para o jornal Maio a Amit Singh, investigador na Universidade de Coimbra, por Jonas Van Vossole

Com campanhas como «Isto não é Bangladesh» e operações policiais como as do Martim Moniz, a comunidade sul-asiática tornou-se um dos principais alvos da propaganda racista e anti-migração — da extrema-direita e, crescentemente, do próprio governo —, apesar de ser uma comunidade relativamente pequena.

Quais são as origens históricas desta comunidade em Portugal? Como se relacionam as diferentes vagas com a história colonial portuguesa — o subcontinente indiano, a África Oriental, Macau?

Durante o período colonial português na Índia, um pequeno número de goeses com formação superior veio para Portugal em busca de educação e emprego. Um ponto de viragem decisivo ocorreu quando a Índia incorporou Goa em 1961. Muitos goeses com cidadania portuguesa ou ligações a Portugal emigraram nos anos seguintes. A maior vaga histórica chegou após a independência das colónias africanas de Portugal, nomeadamente Moçambique e Angola, em meados da década de 1970. Durante gerações, muitos sul-asiáticos — sobretudo hindus gujaratis, muçulmanos, ismaelitas e goeses — tinham vivido na África Oriental sob domínio colonial português. Com a descolonização, milhares relocalizaram-se para Portugal.

Desde a década de 1990, Portugal tem atraído novos migrantes diretamente do Sul da Ásia, em particular da Índia, Paquistão, Bangladesh e Nepal. A maioria provém de famílias de classe média baixa. Muitos trabalham na agricultura, construção, hotelaria, restauração, entregas e pequenos negócios. O migrante sul-asiático recente típico é frequentemente um jovem adulto de família de classe trabalhadora ou média baixa que vê a migração como uma estratégia de mobilidade social e segurança económica. Embora muitos comecem em setores de baixos salários, o espectro vai de trabalhadores agrícolas a licenciados e empresários. Esta diversidade é importante porque o debate público em Portugal tende a retratar os migrantes sul-asiáticos como um grupo homogéneo, quando na realidade diferem consideravelmente em termos de nacionalidade, classe, educação, religião e percurso migratório.

O que nos dizem os números? Qual é a proporção real de imigrantes do subcontinente indiano nos fluxos migratórios para Portugal?

Tem havido um aumento muito acentuado da imigração para Portugal nos últimos anos, e a migração sul-asiática é uma parte visível dessa subida — mas não é uma «explosão súbita do nada», e continua a ser uma minoria num boom migratório muito mais amplo, impulsionado sobretudo pelo Brasil e pela África lusófona. Os sul-asiáticos têm um peso significativo entre as novas chegadas, mas não são a comunidade dominante em termos de stock populacional. Antes de 2015–2018, a migração sul-asiática era relativamente pequena: a comunidade indiana nos inícios de 2010 situava-se entre os 10 000 e os 20 000, e os nepaleses e bangladeshis eram muito poucos. Após 2017, a comunidade indiana cresceu dos 34 000 (cerca de 2022) para 100 000 (2024), tornando-se a segunda maior comunidade a seguir à brasileira; seguem-se aproximadamente 58 000 nepaleses, 55 199 bangladeshis e 48 508 paquistaneses (Público, 27 de abril de 2026). Estas quatro comunidades somaram cerca de 652,12 milhões de euros em contribuições para a Segurança Social em 2025 (Público, ibid.).

Quais são as principais dificuldades que estas comunidades enfrentam — legal, administrativa, ao nível das condições de trabalho? E qual tem sido o efeito concreto da conhecida disfunção da AIMA na vida das pessoas, no seu estatuto legal e no acesso a direitos laborais? 

A AIMA adotou uma estratégia deliberada de assédio aos migrantes sul-asiáticos, através de atrasos que não podem ser explicados por mera incompetência institucional. Quero citar o meu próprio caso: tenho um visto de ensino superior há oito anos. Até 2022, raramente tive problemas em renovar a minha autorização de residência online; desde janeiro de 2026, estou bloqueado no processo de renovação. Após seis meses de espera, marcaram-me uma presença para verificação de documentos — algo que poderia ter sido feito online. Durante esse período de espera, não posso viajar para o estrangeiro, o que me fez perder seminários e eventos académicos. Agora tenho de viajar por uma emergência familiar sem ter a minha autorização de residência, situação que cria a possibilidade de um regresso a Portugal com enormes complicações legais.

Mas a situação dos migrantes sul-asiáticos que trabalham na agricultura, construção e restauração é ainda mais precária. Sem documentos válidos, não podem abrir conta bancária, não podem circular livremente e, em muitos casos, são explorados pelos seus empregadores: trabalhando em excesso, mal pagos, mantidos em condições de vida desumanas. A falta de documentação válida coloca-os numa precariedade legal, social, psicológica e económica que resulta em múltiplas violações de direitos humanos. Ao atrasar a emissão e renovação de documentos, o Estado português nega a estes migrantes o direito a viver com dignidade, a trabalhar em condições decentes e a aceder às necessidades humanas básicas. Sem documentos válidos, encontram-se num limbo jurídico que os torna vulneráveis à exploração — os empregadores privados recusam aceitar o recibo comprovativo de pedido emitido pela AIMA — e que os impede de aceder a serviços básicos, incluindo habitação. As incertezas geradas por este limbo não só violam inúmeros direitos laborais como provocam ansiedade crónica e sérios problemas de saúde mental. Mesmo os que têm documentos válidos não estão em condições de contestar a AIMA ou a polícia, pois já se encontram numa situação vulnerável por falta de rendimentos suficientes, barreiras linguísticas, falta de informação e de redes locais.

Já sabemos que há migrantes que passam a noite à porta das instalações da AIMA à espera que abriam de manhã. É simplesmente humilhante. Em vários casos — incluindo a minha própria experiência —, funcionários da AIMA, do IRN e dos CTT recusaram comunicar em inglês e humilharam publicamente sul-asiáticos por não falarem português, negando-lhes a prestação de serviços. Este padrão normalizou-se também nos espaços públicos. A polícia, a administração e a AIMA têm falhado na prestação de serviços de apoio e tornaram-se eles próprios a principal fonte de problemas para os imigrantes. O apoio disponível é manifestamente insuficiente, e a polícia, na maioria dos casos, não leva a sério as queixas apresentadas. Nos postos de controlo de imigração, os sul-asiáticos são alvo de escrutínio racial e interrogatórios sistemáticos.

Apesar do contributo valioso destas comunidades para os fundos da Segurança Social e para a construção da sociedade portuguesa, são ignoradas pelo Estado e pela sociedade. Parece-me que a sociedade portuguesa, sob a influência da ideologia de extrema-direita, desenvolveu uma apatia relativamente aos direitos destes migrantes. São vistos como fanáticos — sobretudo os muçulmanos —, sujos e propensos ao crime. Estes migrantes são vítimas de racismo e discriminação quotidianos — que em muitos casos não chegam a ser denunciados —, não só por parte das agências governamentais mas também por parte de portugueses em geral. Os imigrantes sul-asiáticos são culpabilizados pela crise da habitação e pelo aumento da criminalidade, mas não são responsáveis por nenhum dos dois fenómenos. São os ricos ocidentais que compram casas e os portugueses que arrendam os seus imóveis a turistas. Os imigrantes sul-asiáticos não têm capacidade financeira para gerar uma crise habitacional em Portugal, e não existem estudos que demonstrem qualquer correlação entre o aumento da imigração sul-asiática e o aumento da criminalidade.

Todos os trabalhadores em Portugal têm direito à igualdade de direitos; o problema central reside no acesso efetivo ao seu exercício. A questão crucial é saber se os imigrantes sul-asiáticos marginalizados conseguem aceder a esses direitos com a mesma eficácia que os trabalhadores portugueses. Na situação atual, muitos não conseguem, pelas razões já discutidas. É, por isso, urgente construir solidariedade entre todos os trabalhadores, de modo a que a luta contra a injustiça social e as desigualdades estruturais possa ser travada coletivamente. Esta luta é um projeto comum, que exige responsabilidade e apoio mútuos. Um movimento fundado em interesses partilhados e causas comuns tem mais probabilidades de garantir o direito a uma vida digna e decente para todos.

O papel negativo do atual governo de direita também merece escrutínio: a sua postura anti-imigração reflete-se nas rusgas policiais ao Martim Moniz em 2024, na aprovação de legislação sobre nacionalidade que não é favorável aos imigrantes sul-asiáticos, e nos discursos de ódio anti-imigração. Em termos gerais, os migrantes sul-asiáticos estão a ser progressivamente alienados da sociedade mainstream e empurrados para uma condição de cidadãos de segunda categoria em Portugal.

Apesar de serem o principal alvo da propaganda da extrema-direita, as comunidades sul-asiáticas não parecem ter-se tornado uma causa política sustentada para a esquerda. A que se deve isso, na sua opinião?

Uma grande proporção dos migrantes da Índia, Nepal, Bangladesh e Paquistão chegou a Portugal apenas na última década. As relações políticas costumam demorar anos — ou até gerações — a desenvolver-se. Os migrantes sul-asiáticos concentraram-se sobretudo na obtenção de estatuto legal, emprego, habitação e reunificação familiar, mais do que na participação política. As comunidades sul-asiáticas em Portugal continuam fragmentadas por origem nacional, língua, religião, região e casta, o que dificulta a mobilização política coletiva.

A esquerda falhou na construção de relações políticas significativas com estas comunidades? — e, se sim, o que explica esse fracasso?

Os migrantes sul-asiáticos são ainda relativamente recentes. Muitos não têm cidadania e não podem votar nas eleições nacionais. Acredito que os partidos de esquerda em Portugal tendem a investir os seus recursos onde os retornos eleitorais são mais imediatos. As comunidades com menor participação eleitoral recebem menos atenção de todos os partidos. Por outro lado, parte da diáspora sul-asiática tem posições que nem sempre se alinham facilmente com a política da esquerda europeia contemporânea: a maioria dos migrantes sul-asiáticos é socialmente conservadora, religiosa, orientada para a família e para o empreendedorismo individual, mais do que sindicalizada. Isso pode deixar os partidos de esquerda incertos sobre como envolver politicamente estas comunidades.

A esquerda falhou na construção de relações significativas porque não investiu o suficiente em recrutar líderes sul-asiáticos, promover candidatos destas comunidades, construir relações de base e compreender a diversidade interna das populações sul-asiáticas. Embora partidos como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português tenham genericamente defendido os direitos dos migrantes, nenhum construiu ainda uma base política sul-asiática sólida e duradoura comparável às relações que alguns partidos europeus de esquerda desenvolveram com comunidades imigrantes mais antigas.

Há também uma ausência notável de esforço sindical para organizar os setores onde os trabalhadores sul-asiáticos estão muito presentes — nomeadamente a pesca e o setor agrícola no Alentejo. Como explica isso? Os sindicatos não querem, não conseguem, ou são simplesmente indiferentes?

A agricultura e as pescas têm sido historicamente dos setores mais difíceis de sindicalizar, porque os trabalhadores têm frequentemente contratos temporários ou sazonais e mudam com frequência de entidade patronal e de região. Os trabalhadores imigrantes temem perder o emprego se se tornarem ativos em conflitos laborais. Estas condições dificultam a organização coletiva independentemente da nacionalidade. Muitos trabalhadores sul-asiáticos em Portugal tinham processos de regularização pendentes, situações de residência temporária e dependência de intermediários ou recrutadores de mão de obra. Trabalhadores que receiam perder o emprego ou as perspetivas de residência são muitas vezes relutantes em aderir a sindicatos ou participar em ações coletivas. A barreira linguística é também um obstáculo real à construção de confiança e comunicação.

Muitas estruturas sindicais foram construídas em torno dos trabalhadores portugueses e dos setores laborais mais antigos. Os migrantes sul-asiáticos chegaram mais depressa do que as instituições se adaptaram. Nesse sentido, o que existe é sobretudo inércia institucional, falta de prioridade estratégica e fraco conhecimento das comunidades migrantes — mais do que hostilidade declarada. Os sindicatos portugueses não desenvolveram ainda uma estratégia para os trabalhadores sul-asiáticos à altura da importância crescente destas comunidades em setores como a agricultura do Alentejo.

Existem formas de auto-organização dentro destas comunidades — associações, lideranças políticas, iniciativas coletivas?

Os sul-asiáticos pertencem a culturas não confrontacionais; em Portugal, hesitam em desafiar as autoridades, uma vez que a obediência à autoridade é um dos valores centrais da cultura asiática. A maioria dos imigrantes sul-asiáticos carece do ímpeto anticolonial que os seus antepassados tiveram. Em Portugal, a maioria das organizações de imigrantes concentra-se no apoio comunitário, nos direitos dos migrantes, na representação cultural e na integração, mais do que na política eleitoral. Alguns exemplos relevantes:

A NIALP – Associação Intercultural de Lisboa, fundada por membros da comunidade nepalesa, trabalha na integração, nos direitos dos migrantes e no apoio social. A Portugal Multicultural Academy Association tem fortes ligações à comunidade bangladeshi e presta apoio em educação, formação e questões de imigração. A Bhoomi – Indian Cultural and Welfare Association promove a vida cultural indiana e o bem-estar comunitário, funcionando como plataforma de envolvimento cívico para os indianos residentes em Portugal. Existem ainda associações bangladeshis locais em Lisboa e Porto, bem como a Associação Luso-Paquistanesa em Lisboa, que participa em reuniões com a AIMA. Nos últimos anos, as associações sul-asiáticas começaram a intervir publicamente em matéria de legislação sobre imigração, atrasos nas autorizações de residência, exploração laboral e xenofobia. As associações indiana e bangladeshi criticaram publicamente, por exemplo, as alterações à legislação de imigração em 2024.

Quais são os principais obstáculos a esse tipo de organização — vulnerabilidade legal, diversidade interna, falta de recursos, hostilidade institucional?

A mobilização política parece menos urgente do que as preocupações económicas imediatas. Muitos migrantes estão focados no estatuto legal e no avanço económico. A maioria das organizações funciona com voluntários e carece dos recursos, pessoal e acesso aos meios de comunicação de que dispõem as grandes organizações da sociedade civil portuguesa. As comunidades são altamente fragmentadas: «sul-asiático» inclui indianos, bangladeshis, paquistaneses, nepaleses e cingaleses, divididos ainda por língua, religião, região e classe. Muitas associações privilegiam as necessidades práticas em detrimento da agenda política: o foco está frequentemente em ajudar as pessoas a obter documentos, encontrar habitação, navegar os procedimentos da AIMA, aprender português ou aceder a cuidados de saúde.

Os partidos políticos, os sindicatos e os meios de comunicação não criaram canais suficientes através dos quais as vozes sul-asiáticas possam influenciar o debate público. Sem aberturas institucionais, as organizações comunitárias tendem a permanecer viradas para dentro. A diversidade interna é também um obstáculo real: línguas, religiões, identidades nacionais e origens de classe distintas. Um empresário indiano em Lisboa, um trabalhador agrícola bangladeshi em Odemira e um trabalhador nepalês num restaurante no Porto têm prioridades muito diferentes. No entanto, as gerações mais novas e os migrantes com maior formação participam crescentemente no debate público sobre imigração, em iniciativas antirracistas e em trabalho académico e jornalístico. O paradoxo é que os sul-asiáticos se tornam cada vez mais importantes para a economia e a demografia portuguesas, mas continuam sub-representados nos partidos políticos, nos sindicatos, na política municipal e nos meios de comunicação nacionais.

Há alguma voz política emergente, por mais frágil que seja, dentro destas comunidades?

A liderança tem vindo crescentemente não só de empresários e instituições religiosas, mas também de ativistas pelos direitos dos migrantes, investigadores, jornalistas e organizadores comunitários que trabalham em torno dos direitos laborais, regularização, habitação e integração. Na comunidade nepalesa, uma das figuras mais visíveis é Kamal Prasad Bhattarai, presidente da associação NIALP. Na comunidade bangladeshi, líderes como Alam Shah Kazolm e Rana Taslim Ud-Din têm atuado como intermediários entre os migrantes e as instituições portuguesas. A comunidade indiana é mais fragmentada. Na comunidade paquistanesa, Muhammad Yassin e Muhammad Khalid Ejaz são lideranças reconhecidas.



Amit Singh é investigador de pós-doutoramento na Universidade de Coimbra. É doutorado em direitos humanos. Os seus interesses de investigação centram-se na política de direita na Índia e nos direitos dos imigrantes sul-asiáticos em Portugal.

Wednesday, June 3, 2026

A greve e a soberania

Originalmente publicado no jornal Maio

O que hoje reconhecemos como pilares fundamentais da democracia — o sufrágio universal, os direitos sociais básicos — é consequência direta das greves e, em particular, das greves gerais. A democracia burguesa nasceu de uma aliança contra a aristocracia e a monarquia feudal, mas restringia a cidadania a quem detinha propriedade e pagava impostos (no taxation without representation). O seu principal objetivo era conter o povo revolucionário através de sistemas bicamerais: em Inglaterra, pela Câmara dos Lordes, que conferia poder desproporcional aos aristocratas e grandes proprietários; nos Estados Unidos, pela sobre-representação dos estados mais conservadores no Senado. A medida mais determinante era, porém, a exclusão dos trabalhadores assalariados do direito de voto: considerados economicamente dependentes, não eram tidos como cidadãos autónomos capazes de posições políticas racionais e independentes.

Foram as greves gerais dos séculos XIX e XX que transformaram essa democracia restrita naquilo que hoje conhecemos. Um pouco por toda a Europa, o sufrágio universal e a representação dos trabalhadores figuravam entre as principais reivindicações — e conquistas — dessas lutas, que em todo o lado envolveram confrontos violentos com o Estado e dezenas de mortos.

Mas a ligação entre a greve e a democracia não se esgota na sua dimensão formal. Também no plano do conteúdo, na sua dimensão substantiva, é a greve que está na origem do que hoje consideramos inalienável: os direitos sociais e políticos, o Estado-providência. A jornada de oito horas, as quarenta horas semanais, as férias pagas, os feriados, a saúde e segurança no trabalho, as pensões, o salário mínimo, a concertação social, o aumento generalizado dos salários, o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social — tudo isto são conquistas da greve e da força organizativa do movimento operário. Sem ela, continuaríamos a viver sob um Estado mínimo e autoritário: o despotismo do local de trabalho.

Porque tem a greve — e, em particular, a greve geral — um impacto tão profundo? Em primeiro lugar, pelo seu efeito económico direto e indireto: parar de trabalhar é parar de contribuir para a acumulação de capital. Afeta a faturação e o serviço direto ao patrão, aos clientes e, indiretamente, todas as atividades interligadas. É a forma mais imediata pela qual o trabalhador, pela ausência do seu trabalho, demonstra a sua importância económica e social — e clarifica a relação de forças que o liga ao supervisor, ao patrão, à sociedade e ao Estado.

A greve geral tem, além disso, um potencial revolucionário por duas razões fundamentais.

A primeira é que desfaz a dicotomia entre economia e política sobre a qual assenta o capitalismo. O mercado privado só pode funcionar porque é concebido como uma esfera separada, regulada pelas leis do mercado e da propriedade, sem — ou quase sem — intervenção política direta. Uma greve pode começar como um conflito puramente económico e localizado: um aumento salarial, uma melhoria das condições de trabalho. Mas à medida que se articula em torno de interesses e solidariedades comuns — entre empresas, entre setores, entre diferentes franjas da sociedade — ela alarga-se e generaliza-se; torna-se intrinsecamente política. O que nasceu de um contrato individual de trabalho transforma-se num confronto cujo alvo já não é o patrão, mas o Estado: a mudança das leis, a disputa pelo poder.

A segunda razão é que a greve geral coloca, na prática, a questão da propriedade, do poder e da soberania. Soberano é quem detém o poder na exceção — e no capitalismo, a greve é precisamente esse momento de exceção em que a classe trabalhadora afirma a sua soberania coletiva. O local de trabalho, espaço normalmente autoritário e hierarquizado por quem possui a propriedade, onde o trabalhador cumpre ordens e obedece, inverte-se no momento da greve. Os trabalhadores ocupam o seu lugar enquanto produtores da sociedade: param as máquinas e os serviços, bloqueiam as entradas e os stocks, decidem sobre eventuais serviços mínimos. O patrão perde, temporariamente, o controlo.

Por isso, a greve é também um momento pedagógico. Os trabalhadores descobrem o poder que possuem em conjunto e aprendem que só a solidariedade o sustenta. Para mantê-la e construí-la, são necessárias formas de organização que reflitam esse interesse coletivo: daí nascem as práticas de democracia de base — conselhos de trabalhadores, assembleias gerais, delegações. É a democracia operária, essa organização coletiva e participativa que está na origem histórica do movimento dos trabalhadores.

Esta forma de organização, que emerge quase espontaneamente nas greves mais prolongadas e nas crises revolucionárias, tende a expandir-se para outros domínios da vida social. Uma sociedade paralisada durante semanas — como aconteceu na greve geral belga de 1960-62 ou em Maio de 68 em França — vê rapidamente surgir a necessidade de resolver problemas concretos: a recolha do lixo, a distribuição de alimentos, a segurança. São então os comités grevistas locais e intersetoriais, mas também os órgãos coletivos de bairro e de escola, que dão resposta a essas necessidades — construindo, na prática quotidiana, uma outra sociedade.

É por isso que a greve é muitas vezes entendida como prefiguração da sociedade futura. O conceito de prefiguração tem origem cristã: para atingir o Paraíso, os fiéis deveriam comportar-se já na vida terrena como seguidores de Deus, construindo assim, desde já, o reino de Deus na terra. Quando, na modernidade, a teologia cedeu lugar à política laica e científica, o paraíso religioso — crítica à miséria terrena — foi substituído pelo programa socialista ou comunista, que serve da mesma forma como crítica e alternativa à miséria provocada pelo capitalismo. E a ideia de prefiguração manteve-se: a luta de hoje é já a construção do amanhã.

O termo ganhou nova popularidade nos movimentos Occupy e antiglobalização, mas esqueceu-se da sua forma clássica e original: na greve geral encontramos, já na luta contra o capital, os fundamentos organizativos daquilo que um dia substituirá o capitalismo. É por isso que a greve geral é o principal instrumento político contra a sociedade capitalista.

Por isso mesmo, tudo tem sido feito para enfraquecer e domesticar a greve — muitas vezes em cumplicidade com direções sindicais e no quadro da concertação social. A um primeiro nível, pela via da repressão direta: a ilegalização das greves, a proibição dos sindicatos e das organizações políticas anticapitalistas, a intimidação da organização sindical no local de trabalho.

Mas a um segundo nível, também pela via inversa: a legalização e a domesticação da greve, a concessão do direito à greve em moldes estritos, a burocratização dos sindicatos e do próprio ato grevista, a negociação pública, a concertação social, a intervenção jurídica. São estas as formas através das quais o Estado burguês tende a normalizar a exceção, a evitar a ocupação prolongada e a manter o controlo.

Perante esta dupla ameaça, importa lembrar que a greve não depende de concessões. Mesmo durante as ditaduras fascistas se faziam greves — e se obtinham vitórias, mesmo confrontando a repressão e a violência. A greve não é um direito: é uma prática inerente ao próprio ato de ser trabalhador. É a afirmação da soberania sobre a própria força de trabalho e sobre a própria vida.


Tuesday, February 10, 2026

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”

Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência, mas sobretudo a lógica político-económica que orienta essa resposta.

Jonas van Vossole, Jornal Maio, Fevereiro 11, 2026

Num primeiro momento, o ministro da Economia chegou mesmo a afirmar que as vítimas não necessitavam de apoio imediato, uma vez que já tinham recebido o salário no final do mês. No final do processo, a principal forma de “intervenção” do Governo resumiu-se à disponibilização de linhas de crédito para famílias e empresas, destinadas a reparar os estragos causados pelo vento e a garantir liquidez às empresas cujas atividades foram afetadas.

O Governo poderia ter optado por ajudas diretas a fundo perdido, financiadas pelo Orçamento do Estado, por impostos extraordinários, por fundos europeus ou mesmo por dívida pública assumida de forma direta. Poderia ainda ter mobilizado meios públicos ou recorrido à requisição civil. Não o fez.

Em vez disso, os apoios surgem sob a forma de cortes indiretos na Segurança Social e de linhas de crédito financiadas por bancos privados. A isto soma-se a suspensão do licenciamento da construção, abrindo caminho a uma espécie de faroeste regulatório: reconstrução sem regras, sem planeamento e sem critérios técnicos adequados. O resultado previsível será uma edificação ainda mais precária, mais vulnerável a fenómenos semelhantes no futuro, sem sequer questionar o facto de muitas dessas habitações continuarem a ser reconstruídas em leitos naturais de cheia, onde nunca deveriam ter sido construídas.

Roubar os fundos da Segurança Social é aumentar a exploração

A Segurança Social existe para cobrir riscos inerentes às condições de trabalho e de vida: velhice, doença, desemprego, invalidez. Trata-se, na prática, de uma parcela indireta do salário social: um sistema de seguro coletivo e mutualizado que resulta da luta histórica da classe trabalhadora.

Utilizar esses fundos para responder a riscos que não decorrem do trabalho, mas sim de opções estruturais de gestão político-económica — como as alterações climáticas, a ausência de planeamento urbano ou políticas permissivas de licenciamento — constitui uma distorção profunda da sua função. Na realidade, trata-se de uma forma de expropriação coletiva dos salários da classe trabalhadora e de um aumento da taxa de exploração, ao transferir para os trabalhadores os custos de crises que eles não provocaram.

A opção do governo de recorrer a esses fundos enfraquece a sustentabilidade financeira da Segurança Social, reduz a sua capacidade de garantir prestações regulares e contribui para a erosão da sua legitimidade social. Mais cedo ou mais tarde, essa fragilização será mobilizada como argumento para novos cortes. Não é por acaso: o desmantelamento da Segurança Social integra a agenda ideológica neoliberal da direita, e o desastre natural surge aqui como uma oportunidade para acelerar esse processo sob a aparência de gestão responsável da crise.


As linhas de crédito oferecem, por sua vez, ao sistema financeiro a possibilidade de investir cerca de 2500 milhões de euros na economia portuguesa, com retornos garantidos a longo prazo e com o Estado como fiador último. Funcionam de forma muito semelhante aos mecanismos associados a fundos europeus.

Esta forma de expansão financeira assente no desastre não é excecional: é uma prática recorrente do capitalismo contemporâneo. O capitalismo financeiro, intimamente ligado ao imperialismo, caracteriza-se pela deslocação crescente do capital para produtos financeiros e dívida, à procura de rendas garantidas e ganhos especulativos, em detrimento do investimento direto em instrumentos produtivos.

O papel do Estado é aqui central: garantir a estabilidade destes investimentos, proteger os direitos de propriedade especulativa e assegurar o retorno do capital “garantido”, seja através do sistema judicial e das forças de segurança no plano interno, seja através da diplomacia, do mercantilismo e da intervenção militar no plano internacional.

 

O desastre deixa de ser apenas um problema social e transforma-se numa oportunidade de governação e de acumulação de capital.
 

Capitalismo “verde”, catástrofe e novas cercas

O atual sistema financeiro dito “verde” encontrou nos desastres naturais uma nova e vasta oportunidade de expansão e acumulação. Estamos perante uma nova área de acumulação que pode ser descrita como uma forma renovada de colonialismo ou imperialismo: um processo de acumulação primitiva em contextos onde previamente não existiam mercados.

Aqui, a captura de valor não assenta diretamente na exploração do trabalho, mas nos enclosures — nos cercamentos dos bens comuns —, através da imposição violenta de soberania e de propriedade privada, mediada pelo Estado. Sem o Estado a garantir essa estabilidade e a criar novos “direitos de propriedade”, esta forma de acumulação financeira — por vezes aparentemente abstrata ou virtual — simplesmente não existiria.

A regulação das alterações climáticas por mecanismos de mercado ilustra bem este processo. O problema, material e profundamente político, das secas e cheias cada vez mais severas, das mortes, da pobreza, das migrações forçadas, da perda de biodiversidade e das epidemias é traduzido e reduzido a padrões mensuráveis, despolitizados e desumanizados, definidos por critérios técnico-científicos: graus de temperatura, centímetros de subida do nível do mar, partículas de CO₂ no ar. É a partir dessa abstração que a catástrofe se converte em direitos de emissão — isto é, em direitos de poluição — tratados como propriedade privada e transacionados no mercado. Não apenas como direitos presentes, mas também sob a forma de futures, garantidos por regulamentação estatal e por acordos entre bancos de desenvolvimento e organismos internacionais, como o Banco Mundial ou a União Europeia.

Deste modo, os riscos associados às alterações climáticas — produzidas pelo próprio capitalismo — transformam-se num novo e gigantesco mercado financeiro, avaliado em dezenas de milhares de milhões de euros. Primeiro, através do setor das alterações climáticas; depois, pela financeirização da reconstrução, da adaptação e do risco.

A catástrofe deixa assim de ser uma exceção e passa a integrar o próprio modelo de crescimento. O desastre deixa de ser apenas um problema social e transforma-se numa oportunidade de governação e de acumulação de capital.


Tuesday, February 3, 2026

Kristin: A culpa é do Vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra: dezenas de milhares de casas ficaram sem cobertura, habitações pré-fabricadas implodiram, mais de 800 postes de muito alta tensão colapsaram, o estádio municipal foi parcialmente desmantelado.

Jonas van Vossole, Jornal Maio, Fevereiro 4, 2026

Uma semana depois, grande parte da população continua sem eletricidade, água ou comunicações móveis; as escolas permaneceram encerradas durante dias. E isto falando apenas da cidade de Leiria, sem mencionar localidades ainda mais fustigadas e isoladas, como Vieira de Leiria ou Pedrógão Grande. Perante a dimensão da destruição, é quase um milagre que o número de vítimas mortais tenha sido relativamente baixo.

Mas não nos enganemos: a culpa não é do vento.

Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.

É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.

Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.

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Perante a catástrofe, o Estado demonstrou a sua falência. Em vez de uma resposta rápida, coordenada e à escala nacional, assistimos a um Governo ausente, substituindo ação por visitas simbólicas, declarações vagas e selfies. No primeiro dia após o desastre, foram enviados apenas quatro militares para apoiar a Proteção Civil no distrito de Leiria. Só cinco dias depois se decidiu reforçar os meios de forma minimamente adequada. A ministra da Administração Interna admitiu desconhecer planos de prevenção e reação, classificando o ocorrido como um “fenómeno pedagógico” — uma expressão que procura normalizar aquilo que é, na verdade, incompetência estrutural. Décadas de austeridade e privatizações deixaram um Estado incapaz, descapitalizado e sem meios para proteger quem mais precisa.

A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.

O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos.

A culpa não é do vento. É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Perante o colapso do Estado, foi a auto-organização popular que respondeu. Voluntários distribuíram comida, cobertores e materiais, demonstrando que a solidariedade de classe salva vidas. Este processo tem uma dimensão pedagógica: ensina práticas de cooperação, planeamento coletivo e consciência crítica. A história mostra-o: em 1967, as chuvas intensas que causaram mais de 700 mortos na região de Lisboa tornaram-se um momento central de politização, quando milhares de estudantes se mobilizaram no terreno enquanto o Estado fascista se limitava à repressão e a censura impedia os meios de comunicação de divulgar as dimensões da tragédia.

Mas é igualmente fundamental reconhecer os limites do voluntariado numa sociedade altamente especializada. As pessoas não sabem, nem podem, reconstruir telhados ou redes elétricas em segurança. Os riscos são reais: mais de 600 pessoas já deram entrada nas urgências do Hospital de Leiria com ferimentos associados a trabalhos improvisados de limpeza e reconstrução. A reconstrução exige conhecimento técnico, coordenação e meios produtivos ao serviço da população. Não faz sentido que milhares de trabalhadores da construção civil regressem amanhã à construção de hotéis, enquanto há famílias sem casa, sem eletricidade e à mercê das próximas chuvas.

Onde está a requisição civil? Aquela que surge sem hesitação para limitar direitos laborais, mas desaparece quando é preciso garantir abrigo, reparações e dignidade. É urgente requisitar meios da construção civil, mobilizar trabalhadores qualificados e requisitar alojamento turístico para realojar os desalojados.

A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Monday, January 5, 2026

Labipol: entrevista sobre a ciência e o ativismo


Entrevista pelo professor Luciano Teixeira, Laboratorio de Politica e Violencia, UECE, Fortaleza

FT: O Senhor Doutor Jonas van Vossole (JvV), é um prazer e uma honra ouvi-lo sobre questões que envolvem a produção de ciência de alto nível e a intervenção política do cientista na sociedade. Muito obrigado por aceitar meu convite. 

O senhor doutor é cientista social com mestrado em Economia e Ciência Política, com estudos na Universidade de Ghent e na Universidade de Coimbra, correto?

JvV: Certo.

FT: O senhor doutorou-se pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que é reconhecido por juntar ativistas e investigadores de todo o mundo para produzir um conhecimento para além das epistemologias do Norte global. O senhor considera que a junção entre investigação e ativismo político é prejudicial para as Ciências Sociais e Humanas?

JvV: Pelo contrário, qualquer forma de conhecimento — e, por extensão, qualquer ciência — possui, por definição, uma dimensão social e política, na medida em que produz práticas e saberes com origem e impacto social. A ciência reflete e reproduz relações de poder existentes, mas contém também o potencial para as criticar. Sendo toda a ciência inevitavelmente política, a questão central torna-se a da transparência e da honestidade em explicitar, desde o início, a posição a partir da qual se investiga: estamos a analisar e a produzir conhecimento para manter as relações de poder e conservar desigualdades, ou para as criticar, imaginar alternativas e contribuir para um mundo mais justo?

Enquanto a ciência dominante tende a legitimar a ordem social existente, a crítica social e a filosofia crítica também constituem uma constante ao longo da história do conhecimento. Foi esse tipo de saber que, repetidamente, transformou o mundo e promoveu processos de emancipação social: desde Sócrates, que fundou a filosofia no questionamento do pensamento dominante do seu tempo, passando pela constituição das ciências sociais modernas com a crítica aos efeitos sociais do capitalismo em Marx, Durkheim e Weber, até às abordagens contemporâneas das teorias feministas e pós-coloniais. Considero, assim, que o reconhecimento da articulação entre investigação e ativismo é uma condição fundamental para uma ciência crítica.

FT: O senhor considera-se um marxista, Doutor?

JvV: Sim.

FT: Sendo um marxista, o senhor acredita ser possível responder a alguma questão teórica específica sem um olhar sobre e com a prática social, naquilo que Marx chamou de “crítica-prática”?

JvV: É possível, mas essa resposta representa uma derrota da crítica: trata-se de uma adaptação às normas e ao mundo pré-existente, àquilo que Gramsci designava por senso comum ou pensamento hegemónico. Trata-se de uma resposta conservadora, que é, evidentemente, a mais fácil e indolente.

Ainda assim, há académicos que alegam desenvolver teoria “crítica” sem qualquer envolvimento com a prática social. Trata-se da atividade típica do académico crítico encerrado na chamada “torre de marfim”, que produz conceitos sofisticados para interpretar o mundo, mas sem qualquer aspiração prática de o transformar. Haverá certamente quem se sinta ofendido por esta caracterização; contudo, considero que muito desse fenómeno está presente em críticas oriundas da literatura e da antropologia, dos estudos culturais e, dentro do próprio marxismo, naquilo que ficou conhecido como “marxismo ocidental”.

Muitas dessas correntes têm funcionado como um refúgio académico para ativistas derrotados, onde a análise crítica se limita à teoria pura e se torna contemplativa, em vez de se afirmar como expressão de uma ciência engajada, orientada para a co-construção de conhecimento com as formas de resistência social.

FT: Um teórico pode intervir na prática material e permanecer cientificamente consistente?

JvV: Não só pode, como deve. A consistência científica exige coerência metodológica e um quadro teórico sólido — isto é, um certo grau de objetividade, referências teóricas claras, possibilidade de validação e, embora tal seja contestado por algumas correntes que também reivindicam cientificidade, uma distância epistémica que permita formular conclusões mais abrangentes ou mesmo universais. O que essa consistência nunca pode exigir é neutralidade. É precisamente a existência de um quadro teórico consistente para analisar o mundo que permite identificar as suas contradições e sustentar a crítica.

Por outro lado, o envolvimento político não pode servir de justificação para a falta de rigor científico. Quem assume explicitamente um posicionamento político na sua prática científica — sobretudo quando se trata de uma posição crítica e contra-hegemónica — deve realizar um esforço redobrado na fundamentação e na solidez do conhecimento produzido. Tal posição implica uma responsabilidade acrescida, uma vez que esse trabalho estará inevitavelmente sujeito a um escrutínio mais intenso por parte dos poderes instituídos.

FT: O senhor doutor investiga, financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, os conflitos nas políticas de justiça ambiental na periferia europeia, correto?

JvV: Sim, essa é uma das minhas áreas de investigação. Sou um dos investigadores que coordena o projeto EJMapping, financiado pelo FEDER e pela FCT, centrado no estudo dos conflitos ambientais em Portugal e no sul da Europa. Encontramo-nos atualmente a preparar uma candidatura para articular este trabalho numa rede europeia de investigação, no âmbito das ações COST (Cooperation in Science and Technology).

No âmbito do EJMapping, analisamos de que forma as políticas de transição — quando não acompanhadas por medidas que promovam a participação democrática e a justiça social — tendem a aprofundar desigualdades e a intensificar formas de violência sobre comunidades já estruturalmente vulnerabilizadas. Um dos objetivos centrais da investigação é a produção de conhecimento contra-hegemónico que possa apoiar essas comunidades na sua relação com projetos de desenvolvimento, com o Estado e com grandes empresas, bem como contribuir para o trabalho de ativistas locais. Nesse sentido, o estatuto académico dos investigadores envolvidos pode também desempenhar um papel de visibilização pública e, em certos contextos, de proteção simbólica dos atores sociais envolvidos nos conflitos.

No evento de lançamento do projeto, reunimos mais de 60 representantes do meio académico e de movimentos sociais envolvidos em conflitos ambientais em território português, relacionados com temas como mobilidade, energias renováveis, extrativismo mineiro dito “verde”, planeamento florestal e movimentos climáticos. Desde então, temos recebido vários pedidos de apoio por parte de movimentos sociais, não apenas no plano da articulação e da visibilidade pública, mas também ao nível do apoio técnico e jurídico.

Para além deste projeto e da minha atividade enquanto professor nos programas de doutoramento do Centro de Estudos Sociais, estou igualmente envolvido noutras áreas em que a investigação académica se articula com o envolvimento social e político. O meu principal projeto de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, centra-se na análise da relação entre trabalho, ecologia e relações sindicais, a partir de um quadro teórico inspirado na obra da ativista e filósofa marxista Rosa Luxemburgo e no corpo teórico do eco-marxismo. Trata-se de uma tentativa de reenquadrar, em articulação com sindicatos e movimentos ecológicos, as problemáticas sociais e ecológicas do capitalismo, nomeadamente através da reinterpretação dos conceitos de trabalho, alienação, greve e natureza.

FT: O senhor considera existir recortes de perfis sociais para as vítimas das mudanças climáticas? Ou seja, existem elementos de raça, etnia e classe social que marcam as vítimas mais vulneráveis das mudanças climáticas?

JvV: Em primeiro lugar, não me identifico com o termo vítimas, uma vez que este carrega uma conotação paternalista, individualizante e passiva da violência. Prefiro o termo afetados, por este manter em aberto a dialética entre responsabilidade e subjetividade, bem como o potencial de resistência, de organização coletiva e de agência enquanto sujeitos da sua própria história. Mas é evidente que esses marcadores sociais mencionados – classe, raça e genero – marcam profundamento quem é afectado – mas tambem que tem responsabilidades pelas alterações climáticas e pelos desafios ecológicos em sentido mais amplo.

A nossa principal área científica é hoje designada por Ecologia Política, um campo interdisciplinar que se desenvolveu a partir da geografia – veja autores como Harvey e Swyngedouw – e que se centra no estudo das relações sociais com as dinâmicas ecológicas. Os desafios associados ao Antropoceno e às alterações climáticas — mas não apenas estes — refletem a estrutura profundamente desigual da sociedade contemporânea. A análise empírica demonstra de forma consistente que os grupos mais afetados correspondem às posições mais vulneráveis nas hierarquias globais de poder. Enquanto os países mais ricos são responsáveis pela maior parte da poluição, são os países mais pobres que sofrem de forma desproporcionada com secas, doenças ou cheias. Do mesmo modo, quem vive numa habitação de luxo num condomínio fechado não enfrenta os impactos de cheias ou deslizamentos de terras da mesma forma que quem habita uma moradia precária numa favela situada numa encosta íngreme.

FT: O senhor considera inconveniente para a investigação que os estudiosos tomem posição pública em prol desses afetados?

JvV: Não só não é inconveniente, como é fundamental para o desenvolvimento científico. A consciência das desigualdades sociais tem sido decisiva para o avanço do conhecimento nas últimas décadas. A questão racial, por exemplo, revelou-se central para a compreensão das desigualdades ecológicas nos Estados Unidos, dando origem ao conceito e a uma vasta literatura académica sobre racismo ambiental, sendo o trabalho de Laura Pulido um dos mais frequentemente citados nesse campo.

Mais recentemente, desenvolveu-se também um corpo teórico significativo no eco-marxismo, que sistematizou a análise de classe e o materialismo histórico em articulação com a questão ambiental — dimensões que durante muito tempo foram consideradas incompatíveis. O teórico franco-brasileiro Michael Löwy teve um papel relevante nas formulações iniciais deste campo; entretanto, autores como John Bellamy Foster, Jason W. Moore, Matt Huber, Andreas Malm e Stefania Barca tornaram-se referências centrais nas ciências sociais críticas a partir das suas reflexões sobre classe, capitalismo e alterações climáticas. Também o trabalho recente do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo, tem contribuído com análises importantes nesse debate.

FT: Senhor Doutor Jonas van Vossole, camarada, eu quero agradecer pelo seu tempo e desejar que 2026 seja um ano profícuo. Já aproveito para convidá-lo, logo que possível, para estar entre nós, na Universidade Estadual do Ceará.

Entrevista realizada por escrito, no dia 02 de janeiro de 2026.


https://labipol.com.br/jonas-van-vossole-entrevista-sobre-a-ciencia-e-o-ativismo/?fbclid=IwY2xjawPIcHVleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFyN0h1VXlaYmMxYjBNSU1nc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtW5S82yHO7yFcau2IDHsr3GfSiawA_TJOxHuFdbq6hXxG1F99phH95Wqb4v_aem_ZW3sSbne2NhESxKj1ByhGg

Friday, September 26, 2025

A Grande Substituição: raça, natalidade e capitalismo

Se há alguma base científica para o mito neofascista da “substituição” — segundo o qual imigrantes racializados estariam a “substituir” a “raça branca” por obra de uma conspiração tramada por gente “woke”, políticos de esquerda, feministas, judeus ou maçons —, essa base está, ironicamente, no próprio sistema económico que a direita tanto defende: o capitalismo.

É hoje um consenso que a precariedade dos jovens — em termos de emprego, salários e habitação —, combinada com o enfraquecimento de serviços públicos essenciais, como o SNS, tem sido um entrave significativo à constituição de família e à decisão de ter filhos. Jovens em idade fértil emigram e constituem família fora de Portugal. Para os que ficam, os contratos de trabalho, quase sempre a curto prazo, impedem o planeamento a longo prazo. Isso afeta praticamente todas as camadas do mercado laboral: desde os trabalhadores com salários mais baixos, que têm dificuldade em sobreviver e pagar contas, até aos mais qualificados, onde a maioria dos contratos de pós-doutoramento ou de investigação científica dura dois ou três anos.

Na prática, uma parte considerável dos jovens só consegue ponderar ter filhos quando, após o falecimento dos pais ou avós, herda algum património que lhes permite finalmente alguma estabilidade — seja em termos de habitação, seja em termos financeiros. É profundamente irónico que o capitalismo neoliberal, baseado na ultra-competição que supostamente reflete a “eficiência” e a “meritocracia” da “seleção natural”, aliado à ideia da família burguesa como entidade estável de gestão de património e reprodução de herdeiros, acabe por produzir uma realidade em que só os filhos daqueles que herdam — frequentemente por morte prematura dos pais, ou seja, justamente aqueles com menos longevidade e mais problemas de saúde — conseguem, por sua vez, constituir família. Em termos neo-darwinistas, tão valorizados em certos meios da direita, o “survival of the fittest” dá lugar à procriação dos “menos aptos”.

Entretanto, os únicos que continuam a procriar — alimentando o pânico dessa mesma extrema-direita pequeno-burguesa, como se viu na abjeta prática de divulgar publicamente nomes de origem estrangeira — são, frequentemente, os imigrantes mais pobres e racializados. Os nomes das crianças que Ventura e Matias expuseram no Parlamento e nas redes sociais dificilmente evocariam origens germânicas ou anglo-saxónicas. A razão destes terem uma natalidade maior é simples: nestas camadas sociais, independentemente da origem étnica — tal como acontecia com os pobres alentejanos ou minhotos que emigravam para as grandes cidades ou para França —, a constituição de uma família burguesa nunca fez parte do imaginário. A decisão de ter filhos não depende de cálculos racionais sobre se será possível pagar o futuro ou os estudos das crianças, nem de ter casa própria ou uma família estável. Depende antes de uma combinação de múltiplos outros fatores — que os moralistas burgueses sempre classificaram como “baixas morais” da plebe: comportamentos vistos como libertinagem, a suposta irracionalidade sexual de jovens ou adultos com pouca educação sexual; ou, pelo contrário, decisões racionais dentro de contextos de carência, como a necessidade de garantir segurança social futura, ajuda na velhice, através dos filhos. Acrescem ainda normas patriarcais, tradições ou imposições religiosas — como o velho mandamento católico “Ide e multiplicai-vos” — ou até situações de violência sexual.

É claro que muitas dessas crianças crescerão em condições difíceis, como sempre aconteceu entre os mais pobres no capitalismo: famílias disfuncionais, alcoolismo, problemas de saúde mental, pais ausentes por trabalharem em turnos ou por terem dois empregos, mães solteiras cujos parceiros nunca assumiram a criança. Mas isso pouco importa ao sistema: a procriação aqui é uma forma de acumulação primitiva de capital. Trata-se da produção de mão de obra barata, da próxima geração de trabalhadores superexplorados que sustentará a economia, sem direitos, com pouco investimento público ou privado na educação, em escolas periféricas. Serão estes jovens que, dentro de vinte anos, trabalharão nas obras, nas plataformas logísticas, nos portos, nos Ubers e no retalho.

Voltamos, assim, ao capitalismo e à família burguesa. As desigualdades geradas pela competição económica produzem efeitos sociais distintos em diferentes camadas da sociedade. Entre a classe trabalhadora com alguns direitos — cuja branquitude lhe confere o privilégio de emigrar legalmente para o Norte da Europa e que aspira a alguma estabilidade de classe média — observa-se uma drástica diminuição da fertilidade. Essa classe com alguns direitos — direitos sociais cada vez menos universais e mais transformados em privilégios ligados à nacionalidade, à legalidade ou à condição racial — tende, assim, a desaparecer juntamente com esses mesmos direitos, enquanto não superar o capitalismo. Já entre aqueles que vivem nas margens da sociedade, devido ao racismo, à discriminação, à (semi-)ilegalidade e à violência, é precisamente a ausência de perspetivas de futuro — onde os filhos surgem como única forma de segurança social — que impulsiona a decisão de ter filhos. E o capital agradece essa carne barata.

E então há solução? É claro que nenhuma solução razoável virá da extrema-direita, que, na sua cruzada contra a chamada “grande substituição”, procura privilegiar ainda mais os direitos sociais de forma excludente aos cidadãos nacionais nativos, ao mesmo tempo que pretende aprofundar a superexploração dos setores mais excluídos da classe trabalhadora — nem mesmo em benefício da própria classe trabalhadora branca. Como se demonstrou, essa estratégia apenas reforçará o mecanismo já em curso.

A única saída passa por garantir condições de trabalho e de vida dignas para todos, de modo que os jovens possam decidir livremente se querem ou não ter filhos, sem o peso de condicionantes económicas. Que não existam jovens com medo de ter filhos por falta de habitação ou de emprego com direitos, nem mães que sintam necessidade de ter filhos apenas para assegurar apoio na velhice. É igualmente essencial garantir um SNS que funcione em condições, para que as mulheres não tenham receio de dar à luz, bem como assegurar serviços públicos gratuitos — creches, escolas, saúde — que apoiem o cuidado das crianças, independentemente das condições socioeconómicas dos pais.