Tuesday, February 10, 2026

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”

Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência, mas sobretudo a lógica político-económica que orienta essa resposta.

Jonas van Vossole, Jornal Maio, Fevereiro 11, 2026

Num primeiro momento, o ministro da Economia chegou mesmo a afirmar que as vítimas não necessitavam de apoio imediato, uma vez que já tinham recebido o salário no final do mês. No final do processo, a principal forma de “intervenção” do Governo resumiu-se à disponibilização de linhas de crédito para famílias e empresas, destinadas a reparar os estragos causados pelo vento e a garantir liquidez às empresas cujas atividades foram afetadas.

O Governo poderia ter optado por ajudas diretas a fundo perdido, financiadas pelo Orçamento do Estado, por impostos extraordinários, por fundos europeus ou mesmo por dívida pública assumida de forma direta. Poderia ainda ter mobilizado meios públicos ou recorrido à requisição civil. Não o fez.

Em vez disso, os apoios surgem sob a forma de cortes indiretos na Segurança Social e de linhas de crédito financiadas por bancos privados. A isto soma-se a suspensão do licenciamento da construção, abrindo caminho a uma espécie de faroeste regulatório: reconstrução sem regras, sem planeamento e sem critérios técnicos adequados. O resultado previsível será uma edificação ainda mais precária, mais vulnerável a fenómenos semelhantes no futuro, sem sequer questionar o facto de muitas dessas habitações continuarem a ser reconstruídas em leitos naturais de cheia, onde nunca deveriam ter sido construídas.

Roubar os fundos da Segurança Social é aumentar a exploração

A Segurança Social existe para cobrir riscos inerentes às condições de trabalho e de vida: velhice, doença, desemprego, invalidez. Trata-se, na prática, de uma parcela indireta do salário social: um sistema de seguro coletivo e mutualizado que resulta da luta histórica da classe trabalhadora.

Utilizar esses fundos para responder a riscos que não decorrem do trabalho, mas sim de opções estruturais de gestão político-económica — como as alterações climáticas, a ausência de planeamento urbano ou políticas permissivas de licenciamento — constitui uma distorção profunda da sua função. Na realidade, trata-se de uma forma de expropriação coletiva dos salários da classe trabalhadora e de um aumento da taxa de exploração, ao transferir para os trabalhadores os custos de crises que eles não provocaram.

A opção do governo de recorrer a esses fundos enfraquece a sustentabilidade financeira da Segurança Social, reduz a sua capacidade de garantir prestações regulares e contribui para a erosão da sua legitimidade social. Mais cedo ou mais tarde, essa fragilização será mobilizada como argumento para novos cortes. Não é por acaso: o desmantelamento da Segurança Social integra a agenda ideológica neoliberal da direita, e o desastre natural surge aqui como uma oportunidade para acelerar esse processo sob a aparência de gestão responsável da crise.


As linhas de crédito oferecem, por sua vez, ao sistema financeiro a possibilidade de investir cerca de 2500 milhões de euros na economia portuguesa, com retornos garantidos a longo prazo e com o Estado como fiador último. Funcionam de forma muito semelhante aos mecanismos associados a fundos europeus.

Esta forma de expansão financeira assente no desastre não é excecional: é uma prática recorrente do capitalismo contemporâneo. O capitalismo financeiro, intimamente ligado ao imperialismo, caracteriza-se pela deslocação crescente do capital para produtos financeiros e dívida, à procura de rendas garantidas e ganhos especulativos, em detrimento do investimento direto em instrumentos produtivos.

O papel do Estado é aqui central: garantir a estabilidade destes investimentos, proteger os direitos de propriedade especulativa e assegurar o retorno do capital “garantido”, seja através do sistema judicial e das forças de segurança no plano interno, seja através da diplomacia, do mercantilismo e da intervenção militar no plano internacional.

 

O desastre deixa de ser apenas um problema social e transforma-se numa oportunidade de governação e de acumulação de capital.
 

Capitalismo “verde”, catástrofe e novas cercas

O atual sistema financeiro dito “verde” encontrou nos desastres naturais uma nova e vasta oportunidade de expansão e acumulação. Estamos perante uma nova área de acumulação que pode ser descrita como uma forma renovada de colonialismo ou imperialismo: um processo de acumulação primitiva em contextos onde previamente não existiam mercados.

Aqui, a captura de valor não assenta diretamente na exploração do trabalho, mas nos enclosures — nos cercamentos dos bens comuns —, através da imposição violenta de soberania e de propriedade privada, mediada pelo Estado. Sem o Estado a garantir essa estabilidade e a criar novos “direitos de propriedade”, esta forma de acumulação financeira — por vezes aparentemente abstrata ou virtual — simplesmente não existiria.

A regulação das alterações climáticas por mecanismos de mercado ilustra bem este processo. O problema, material e profundamente político, das secas e cheias cada vez mais severas, das mortes, da pobreza, das migrações forçadas, da perda de biodiversidade e das epidemias é traduzido e reduzido a padrões mensuráveis, despolitizados e desumanizados, definidos por critérios técnico-científicos: graus de temperatura, centímetros de subida do nível do mar, partículas de CO₂ no ar. É a partir dessa abstração que a catástrofe se converte em direitos de emissão — isto é, em direitos de poluição — tratados como propriedade privada e transacionados no mercado. Não apenas como direitos presentes, mas também sob a forma de futures, garantidos por regulamentação estatal e por acordos entre bancos de desenvolvimento e organismos internacionais, como o Banco Mundial ou a União Europeia.

Deste modo, os riscos associados às alterações climáticas — produzidas pelo próprio capitalismo — transformam-se num novo e gigantesco mercado financeiro, avaliado em dezenas de milhares de milhões de euros. Primeiro, através do setor das alterações climáticas; depois, pela financeirização da reconstrução, da adaptação e do risco.

A catástrofe deixa assim de ser uma exceção e passa a integrar o próprio modelo de crescimento. O desastre deixa de ser apenas um problema social e transforma-se numa oportunidade de governação e de acumulação de capital.


Tuesday, February 3, 2026

Kristin: A culpa é do Vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra: dezenas de milhares de casas ficaram sem cobertura, habitações pré-fabricadas implodiram, mais de 800 postes de muito alta tensão colapsaram, o estádio municipal foi parcialmente desmantelado.

Jonas van Vossole, Jornal Maio, Fevereiro 4, 2026

Uma semana depois, grande parte da população continua sem eletricidade, água ou comunicações móveis; as escolas permaneceram encerradas durante dias. E isto falando apenas da cidade de Leiria, sem mencionar localidades ainda mais fustigadas e isoladas, como Vieira de Leiria ou Pedrógão Grande. Perante a dimensão da destruição, é quase um milagre que o número de vítimas mortais tenha sido relativamente baixo.

Mas não nos enganemos: a culpa não é do vento.

Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.

É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.

Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.

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Perante a catástrofe, o Estado demonstrou a sua falência. Em vez de uma resposta rápida, coordenada e à escala nacional, assistimos a um Governo ausente, substituindo ação por visitas simbólicas, declarações vagas e selfies. No primeiro dia após o desastre, foram enviados apenas quatro militares para apoiar a Proteção Civil no distrito de Leiria. Só cinco dias depois se decidiu reforçar os meios de forma minimamente adequada. A ministra da Administração Interna admitiu desconhecer planos de prevenção e reação, classificando o ocorrido como um “fenómeno pedagógico” — uma expressão que procura normalizar aquilo que é, na verdade, incompetência estrutural. Décadas de austeridade e privatizações deixaram um Estado incapaz, descapitalizado e sem meios para proteger quem mais precisa.

A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.

O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos.

A culpa não é do vento. É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Perante o colapso do Estado, foi a auto-organização popular que respondeu. Voluntários distribuíram comida, cobertores e materiais, demonstrando que a solidariedade de classe salva vidas. Este processo tem uma dimensão pedagógica: ensina práticas de cooperação, planeamento coletivo e consciência crítica. A história mostra-o: em 1967, as chuvas intensas que causaram mais de 700 mortos na região de Lisboa tornaram-se um momento central de politização, quando milhares de estudantes se mobilizaram no terreno enquanto o Estado fascista se limitava à repressão e a censura impedia os meios de comunicação de divulgar as dimensões da tragédia.

Mas é igualmente fundamental reconhecer os limites do voluntariado numa sociedade altamente especializada. As pessoas não sabem, nem podem, reconstruir telhados ou redes elétricas em segurança. Os riscos são reais: mais de 600 pessoas já deram entrada nas urgências do Hospital de Leiria com ferimentos associados a trabalhos improvisados de limpeza e reconstrução. A reconstrução exige conhecimento técnico, coordenação e meios produtivos ao serviço da população. Não faz sentido que milhares de trabalhadores da construção civil regressem amanhã à construção de hotéis, enquanto há famílias sem casa, sem eletricidade e à mercê das próximas chuvas.

Onde está a requisição civil? Aquela que surge sem hesitação para limitar direitos laborais, mas desaparece quando é preciso garantir abrigo, reparações e dignidade. É urgente requisitar meios da construção civil, mobilizar trabalhadores qualificados e requisitar alojamento turístico para realojar os desalojados.

A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Monday, January 5, 2026

Labipol: entrevista sobre a ciência e o ativismo


Entrevista pelo professor Luciano Teixeira, Laboratorio de Politica e Violencia, UECE, Fortaleza

FT: O Senhor Doutor Jonas van Vossole (JvV), é um prazer e uma honra ouvi-lo sobre questões que envolvem a produção de ciência de alto nível e a intervenção política do cientista na sociedade. Muito obrigado por aceitar meu convite. 

O senhor doutor é cientista social com mestrado em Economia e Ciência Política, com estudos na Universidade de Ghent e na Universidade de Coimbra, correto?

JvV: Certo.

FT: O senhor doutorou-se pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que é reconhecido por juntar ativistas e investigadores de todo o mundo para produzir um conhecimento para além das epistemologias do Norte global. O senhor considera que a junção entre investigação e ativismo político é prejudicial para as Ciências Sociais e Humanas?

JvV: Pelo contrário, qualquer forma de conhecimento — e, por extensão, qualquer ciência — possui, por definição, uma dimensão social e política, na medida em que produz práticas e saberes com origem e impacto social. A ciência reflete e reproduz relações de poder existentes, mas contém também o potencial para as criticar. Sendo toda a ciência inevitavelmente política, a questão central torna-se a da transparência e da honestidade em explicitar, desde o início, a posição a partir da qual se investiga: estamos a analisar e a produzir conhecimento para manter as relações de poder e conservar desigualdades, ou para as criticar, imaginar alternativas e contribuir para um mundo mais justo?

Enquanto a ciência dominante tende a legitimar a ordem social existente, a crítica social e a filosofia crítica também constituem uma constante ao longo da história do conhecimento. Foi esse tipo de saber que, repetidamente, transformou o mundo e promoveu processos de emancipação social: desde Sócrates, que fundou a filosofia no questionamento do pensamento dominante do seu tempo, passando pela constituição das ciências sociais modernas com a crítica aos efeitos sociais do capitalismo em Marx, Durkheim e Weber, até às abordagens contemporâneas das teorias feministas e pós-coloniais. Considero, assim, que o reconhecimento da articulação entre investigação e ativismo é uma condição fundamental para uma ciência crítica.

FT: O senhor considera-se um marxista, Doutor?

JvV: Sim.

FT: Sendo um marxista, o senhor acredita ser possível responder a alguma questão teórica específica sem um olhar sobre e com a prática social, naquilo que Marx chamou de “crítica-prática”?

JvV: É possível, mas essa resposta representa uma derrota da crítica: trata-se de uma adaptação às normas e ao mundo pré-existente, àquilo que Gramsci designava por senso comum ou pensamento hegemónico. Trata-se de uma resposta conservadora, que é, evidentemente, a mais fácil e indolente.

Ainda assim, há académicos que alegam desenvolver teoria “crítica” sem qualquer envolvimento com a prática social. Trata-se da atividade típica do académico crítico encerrado na chamada “torre de marfim”, que produz conceitos sofisticados para interpretar o mundo, mas sem qualquer aspiração prática de o transformar. Haverá certamente quem se sinta ofendido por esta caracterização; contudo, considero que muito desse fenómeno está presente em críticas oriundas da literatura e da antropologia, dos estudos culturais e, dentro do próprio marxismo, naquilo que ficou conhecido como “marxismo ocidental”.

Muitas dessas correntes têm funcionado como um refúgio académico para ativistas derrotados, onde a análise crítica se limita à teoria pura e se torna contemplativa, em vez de se afirmar como expressão de uma ciência engajada, orientada para a co-construção de conhecimento com as formas de resistência social.

FT: Um teórico pode intervir na prática material e permanecer cientificamente consistente?

JvV: Não só pode, como deve. A consistência científica exige coerência metodológica e um quadro teórico sólido — isto é, um certo grau de objetividade, referências teóricas claras, possibilidade de validação e, embora tal seja contestado por algumas correntes que também reivindicam cientificidade, uma distância epistémica que permita formular conclusões mais abrangentes ou mesmo universais. O que essa consistência nunca pode exigir é neutralidade. É precisamente a existência de um quadro teórico consistente para analisar o mundo que permite identificar as suas contradições e sustentar a crítica.

Por outro lado, o envolvimento político não pode servir de justificação para a falta de rigor científico. Quem assume explicitamente um posicionamento político na sua prática científica — sobretudo quando se trata de uma posição crítica e contra-hegemónica — deve realizar um esforço redobrado na fundamentação e na solidez do conhecimento produzido. Tal posição implica uma responsabilidade acrescida, uma vez que esse trabalho estará inevitavelmente sujeito a um escrutínio mais intenso por parte dos poderes instituídos.

FT: O senhor doutor investiga, financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, os conflitos nas políticas de justiça ambiental na periferia europeia, correto?

JvV: Sim, essa é uma das minhas áreas de investigação. Sou um dos investigadores que coordena o projeto EJMapping, financiado pelo FEDER e pela FCT, centrado no estudo dos conflitos ambientais em Portugal e no sul da Europa. Encontramo-nos atualmente a preparar uma candidatura para articular este trabalho numa rede europeia de investigação, no âmbito das ações COST (Cooperation in Science and Technology).

No âmbito do EJMapping, analisamos de que forma as políticas de transição — quando não acompanhadas por medidas que promovam a participação democrática e a justiça social — tendem a aprofundar desigualdades e a intensificar formas de violência sobre comunidades já estruturalmente vulnerabilizadas. Um dos objetivos centrais da investigação é a produção de conhecimento contra-hegemónico que possa apoiar essas comunidades na sua relação com projetos de desenvolvimento, com o Estado e com grandes empresas, bem como contribuir para o trabalho de ativistas locais. Nesse sentido, o estatuto académico dos investigadores envolvidos pode também desempenhar um papel de visibilização pública e, em certos contextos, de proteção simbólica dos atores sociais envolvidos nos conflitos.

No evento de lançamento do projeto, reunimos mais de 60 representantes do meio académico e de movimentos sociais envolvidos em conflitos ambientais em território português, relacionados com temas como mobilidade, energias renováveis, extrativismo mineiro dito “verde”, planeamento florestal e movimentos climáticos. Desde então, temos recebido vários pedidos de apoio por parte de movimentos sociais, não apenas no plano da articulação e da visibilidade pública, mas também ao nível do apoio técnico e jurídico.

Para além deste projeto e da minha atividade enquanto professor nos programas de doutoramento do Centro de Estudos Sociais, estou igualmente envolvido noutras áreas em que a investigação académica se articula com o envolvimento social e político. O meu principal projeto de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, centra-se na análise da relação entre trabalho, ecologia e relações sindicais, a partir de um quadro teórico inspirado na obra da ativista e filósofa marxista Rosa Luxemburgo e no corpo teórico do eco-marxismo. Trata-se de uma tentativa de reenquadrar, em articulação com sindicatos e movimentos ecológicos, as problemáticas sociais e ecológicas do capitalismo, nomeadamente através da reinterpretação dos conceitos de trabalho, alienação, greve e natureza.

FT: O senhor considera existir recortes de perfis sociais para as vítimas das mudanças climáticas? Ou seja, existem elementos de raça, etnia e classe social que marcam as vítimas mais vulneráveis das mudanças climáticas?

JvV: Em primeiro lugar, não me identifico com o termo vítimas, uma vez que este carrega uma conotação paternalista, individualizante e passiva da violência. Prefiro o termo afetados, por este manter em aberto a dialética entre responsabilidade e subjetividade, bem como o potencial de resistência, de organização coletiva e de agência enquanto sujeitos da sua própria história. Mas é evidente que esses marcadores sociais mencionados – classe, raça e genero – marcam profundamento quem é afectado – mas tambem que tem responsabilidades pelas alterações climáticas e pelos desafios ecológicos em sentido mais amplo.

A nossa principal área científica é hoje designada por Ecologia Política, um campo interdisciplinar que se desenvolveu a partir da geografia – veja autores como Harvey e Swyngedouw – e que se centra no estudo das relações sociais com as dinâmicas ecológicas. Os desafios associados ao Antropoceno e às alterações climáticas — mas não apenas estes — refletem a estrutura profundamente desigual da sociedade contemporânea. A análise empírica demonstra de forma consistente que os grupos mais afetados correspondem às posições mais vulneráveis nas hierarquias globais de poder. Enquanto os países mais ricos são responsáveis pela maior parte da poluição, são os países mais pobres que sofrem de forma desproporcionada com secas, doenças ou cheias. Do mesmo modo, quem vive numa habitação de luxo num condomínio fechado não enfrenta os impactos de cheias ou deslizamentos de terras da mesma forma que quem habita uma moradia precária numa favela situada numa encosta íngreme.

FT: O senhor considera inconveniente para a investigação que os estudiosos tomem posição pública em prol desses afetados?

JvV: Não só não é inconveniente, como é fundamental para o desenvolvimento científico. A consciência das desigualdades sociais tem sido decisiva para o avanço do conhecimento nas últimas décadas. A questão racial, por exemplo, revelou-se central para a compreensão das desigualdades ecológicas nos Estados Unidos, dando origem ao conceito e a uma vasta literatura académica sobre racismo ambiental, sendo o trabalho de Laura Pulido um dos mais frequentemente citados nesse campo.

Mais recentemente, desenvolveu-se também um corpo teórico significativo no eco-marxismo, que sistematizou a análise de classe e o materialismo histórico em articulação com a questão ambiental — dimensões que durante muito tempo foram consideradas incompatíveis. O teórico franco-brasileiro Michael Löwy teve um papel relevante nas formulações iniciais deste campo; entretanto, autores como John Bellamy Foster, Jason W. Moore, Matt Huber, Andreas Malm e Stefania Barca tornaram-se referências centrais nas ciências sociais críticas a partir das suas reflexões sobre classe, capitalismo e alterações climáticas. Também o trabalho recente do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo, tem contribuído com análises importantes nesse debate.

FT: Senhor Doutor Jonas van Vossole, camarada, eu quero agradecer pelo seu tempo e desejar que 2026 seja um ano profícuo. Já aproveito para convidá-lo, logo que possível, para estar entre nós, na Universidade Estadual do Ceará.

Entrevista realizada por escrito, no dia 02 de janeiro de 2026.


https://labipol.com.br/jonas-van-vossole-entrevista-sobre-a-ciencia-e-o-ativismo/?fbclid=IwY2xjawPIcHVleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFyN0h1VXlaYmMxYjBNSU1nc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtW5S82yHO7yFcau2IDHsr3GfSiawA_TJOxHuFdbq6hXxG1F99phH95Wqb4v_aem_ZW3sSbne2NhESxKj1ByhGg

Friday, September 26, 2025

A Grande Substituição: raça, natalidade e capitalismo

Se há alguma base científica para o mito neofascista da “substituição” — segundo o qual imigrantes racializados estariam a “substituir” a “raça branca” por obra de uma conspiração tramada por gente “woke”, políticos de esquerda, feministas, judeus ou maçons —, essa base está, ironicamente, no próprio sistema económico que a direita tanto defende: o capitalismo.

É hoje um consenso que a precariedade dos jovens — em termos de emprego, salários e habitação —, combinada com o enfraquecimento de serviços públicos essenciais, como o SNS, tem sido um entrave significativo à constituição de família e à decisão de ter filhos. Jovens em idade fértil emigram e constituem família fora de Portugal. Para os que ficam, os contratos de trabalho, quase sempre a curto prazo, impedem o planeamento a longo prazo. Isso afeta praticamente todas as camadas do mercado laboral: desde os trabalhadores com salários mais baixos, que têm dificuldade em sobreviver e pagar contas, até aos mais qualificados, onde a maioria dos contratos de pós-doutoramento ou de investigação científica dura dois ou três anos.

Na prática, uma parte considerável dos jovens só consegue ponderar ter filhos quando, após o falecimento dos pais ou avós, herda algum património que lhes permite finalmente alguma estabilidade — seja em termos de habitação, seja em termos financeiros. É profundamente irónico que o capitalismo neoliberal, baseado na ultra-competição que supostamente reflete a “eficiência” e a “meritocracia” da “seleção natural”, aliado à ideia da família burguesa como entidade estável de gestão de património e reprodução de herdeiros, acabe por produzir uma realidade em que só os filhos daqueles que herdam — frequentemente por morte prematura dos pais, ou seja, justamente aqueles com menos longevidade e mais problemas de saúde — conseguem, por sua vez, constituir família. Em termos neo-darwinistas, tão valorizados em certos meios da direita, o “survival of the fittest” dá lugar à procriação dos “menos aptos”.

Entretanto, os únicos que continuam a procriar — alimentando o pânico dessa mesma extrema-direita pequeno-burguesa, como se viu na abjeta prática de divulgar publicamente nomes de origem estrangeira — são, frequentemente, os imigrantes mais pobres e racializados. Os nomes das crianças que Ventura e Matias expuseram no Parlamento e nas redes sociais dificilmente evocariam origens germânicas ou anglo-saxónicas. A razão destes terem uma natalidade maior é simples: nestas camadas sociais, independentemente da origem étnica — tal como acontecia com os pobres alentejanos ou minhotos que emigravam para as grandes cidades ou para França —, a constituição de uma família burguesa nunca fez parte do imaginário. A decisão de ter filhos não depende de cálculos racionais sobre se será possível pagar o futuro ou os estudos das crianças, nem de ter casa própria ou uma família estável. Depende antes de uma combinação de múltiplos outros fatores — que os moralistas burgueses sempre classificaram como “baixas morais” da plebe: comportamentos vistos como libertinagem, a suposta irracionalidade sexual de jovens ou adultos com pouca educação sexual; ou, pelo contrário, decisões racionais dentro de contextos de carência, como a necessidade de garantir segurança social futura, ajuda na velhice, através dos filhos. Acrescem ainda normas patriarcais, tradições ou imposições religiosas — como o velho mandamento católico “Ide e multiplicai-vos” — ou até situações de violência sexual.

É claro que muitas dessas crianças crescerão em condições difíceis, como sempre aconteceu entre os mais pobres no capitalismo: famílias disfuncionais, alcoolismo, problemas de saúde mental, pais ausentes por trabalharem em turnos ou por terem dois empregos, mães solteiras cujos parceiros nunca assumiram a criança. Mas isso pouco importa ao sistema: a procriação aqui é uma forma de acumulação primitiva de capital. Trata-se da produção de mão de obra barata, da próxima geração de trabalhadores superexplorados que sustentará a economia, sem direitos, com pouco investimento público ou privado na educação, em escolas periféricas. Serão estes jovens que, dentro de vinte anos, trabalharão nas obras, nas plataformas logísticas, nos portos, nos Ubers e no retalho.

Voltamos, assim, ao capitalismo e à família burguesa. As desigualdades geradas pela competição económica produzem efeitos sociais distintos em diferentes camadas da sociedade. Entre a classe trabalhadora com alguns direitos — cuja branquitude lhe confere o privilégio de emigrar legalmente para o Norte da Europa e que aspira a alguma estabilidade de classe média — observa-se uma drástica diminuição da fertilidade. Essa classe com alguns direitos — direitos sociais cada vez menos universais e mais transformados em privilégios ligados à nacionalidade, à legalidade ou à condição racial — tende, assim, a desaparecer juntamente com esses mesmos direitos, enquanto não superar o capitalismo. Já entre aqueles que vivem nas margens da sociedade, devido ao racismo, à discriminação, à (semi-)ilegalidade e à violência, é precisamente a ausência de perspetivas de futuro — onde os filhos surgem como única forma de segurança social — que impulsiona a decisão de ter filhos. E o capital agradece essa carne barata.

E então há solução? É claro que nenhuma solução razoável virá da extrema-direita, que, na sua cruzada contra a chamada “grande substituição”, procura privilegiar ainda mais os direitos sociais de forma excludente aos cidadãos nacionais nativos, ao mesmo tempo que pretende aprofundar a superexploração dos setores mais excluídos da classe trabalhadora — nem mesmo em benefício da própria classe trabalhadora branca. Como se demonstrou, essa estratégia apenas reforçará o mecanismo já em curso.

A única saída passa por garantir condições de trabalho e de vida dignas para todos, de modo que os jovens possam decidir livremente se querem ou não ter filhos, sem o peso de condicionantes económicas. Que não existam jovens com medo de ter filhos por falta de habitação ou de emprego com direitos, nem mães que sintam necessidade de ter filhos apenas para assegurar apoio na velhice. É igualmente essencial garantir um SNS que funcione em condições, para que as mulheres não tenham receio de dar à luz, bem como assegurar serviços públicos gratuitos — creches, escolas, saúde — que apoiem o cuidado das crianças, independentemente das condições socioeconómicas dos pais.

Wednesday, August 27, 2025

E se instalássemos os painéis fotovoltaicos nos eucaliptais?

Já que a “fúria da energia verde” tem tanta vontade de abater árvores, porque não começar por eucaliptos e acácias? Seria solução para controlar espécies invasoras, reduzindo danos à biodiversidade.


https://www.publico.pt/2025/03/23/azul/opiniao/instalassemos-paineis-fotovoltaicos-eucaliptais-2126785

No último fim de semana, li uma notícia revoltante: em Condeixa, Coimbra, 1.070 sobreiros serão abatidos para a construção de uma central fotovoltaica. O projeto da Anadia Green, avaliado em 18 milhões de euros, recebeu aprovação da Ministra do Ambiente e do Secretário de Estado das Florestas – um dia antes da queda do Governo. A empresa afirma que compensará o impacto ambiental com a plantação de 7.400 árvores a 170 km de distância, em Marvão, no distrito de Portalegre.

Essa lógica de "compensação" não é nova. A mesma estratégia foi usada pela Metro Mondego quando derrubou metade das árvores centenárias em Coimbra. Mas todos sabemos que árvores com décadas ou séculos de vida não podem ser substituídas no curto ou médio prazo. Não se repõe um ecossistema consolidado simplesmente plantando novas mudas, assim como não se substitui um professor experiente por um recém-nascido. Os sobreiros que serão abatidos são reservatórios de carbono e têm copas robustas que capturam grandes quantidades de CO₂. Além disso, proporcionam sombra, sustentam a biodiversidade, enriquecem o solo e ajudam a reter água. A ideia de que esse impacto pode ser compensado é um engodo. Esse tipo de política apenas desvia a atenção da crise climática e dos danos ambientais causados pelo modelo econômico vigente.

Nos últimos anos, temos visto esse ciclo se repetir: sob o discurso da sustentabilidade, milhões de árvores são derrubadas, biodiversidade é destruída e paisagens naturais são substituídas por vastas áreas de aço, plástico e torres metálicas. O que antes eram planícies e montanhas verdes tornam-se terrenos áridos e cinzentos. A contradição entre discurso e realidade nunca foi tão evidente. O que a literatura acadêmica chama de colonialismo verde ou imperialismo verde manifesta-se, na prática, como a destruição do meio ambiente em nome de uma suposta sustentabilidade.

Isso não significa negar os impactos das energias fósseis ou a urgência da transição energética. No entanto, o que vemos hoje não é uma verdadeira substituição de fontes poluentes por renováveis, mas uma expanção energética: a produção de energia – fóssil E renovável – continua a aumentar e, com ela, a destruição ambiental. Após três décadas de políticas de transição, as emissões globais de gases de efeito estufa não diminuíram significativamente.

Em Portugal, esse modelo predatório se faz sentir nos últimos anos. As comunidades locais de Covas do Barroso sofrem há anos com a ameaça das minas de lítio, que continuam a ser projetadas para a região. Os moradores veem até suas propriedades invadidas pela investidora especulativa Savannah Resources. Outras comunidades, como as de Montalegre e de Argemela, na Serra da Estrela, também veem suas serras, campos e cursos fluviais ameaçados por projetos mineiros.

Esperamos que, em Condeixa, assim como têm feito os barrosenses e as comunidades locais e autarquias em Montalegre, a população se organize, pressione o governo local e impeça que esse projeto seja implementado.

No entanto, é urgente uma mudança política que altere a direção geral dos acontecimentos. O meio ambiente português já está sob enorme pressão devido à seca e aos incêndios florestais – intensificados pela monocultura mortífera de eucaliptos, incentivada durante décadas pela indústria do papel. Apesar das tragédias mortíferas de Pedrógão Grande e Vilarinho, em 2017, os verdadeiros responsáveis – a indústria do papel e os responsáveis pela gestão do território – continuam impunes. Atualmente, os eucaliptais já ocupam mais de um quarto do território florestal português, sem sequer mencionar outras espécies invasoras, como as acácias e as extensas manchas de pinheiros, plantadas durante as políticas florestais do salazarismo, que ameaçam a biodiversidade, degradam os solos e aumentam o risco de incêndios. Não podemos aceitar que a pequena área remanescente de floresta nativa – composta por sobreiros, azinheiras, carvalhos, castanheiros, choupos e salgueiros – seja destruída em nome das energias renováveis ou de projetos de mobilidade verde.

Nesse sentido, deixo uma sugestão: já que a "fúria da energia verde" tem tanta vontade de abater árvores, porque não começar pelos eucaliptos e acácias? Poderia ser proposta uma lei que obrigasse a implementação de projetos de energias renováveis em áreas predominantemente ocupadas por eucaliptais – preferencialmente em terrenos já ardidos. Seria uma solução para controlar e reduzir essa espécie invasora, ajudando a minimizar os danos à biodiversidade.

Além disso, os painéis solares seriam instalados em paisagens já degradadas e desertificadas pelos eucaliptos, evitando a destruição de áreas ecologicamente valiosas. A fragmentação das manchas contínuas de eucaliptos através da instalação de centrais fotovoltaicas poderia também criar corredores ecológicos mais seguros. Esse modelo permitiria investimentos no interior do país sem agravar ainda mais a destruição ambiental e poderia até incentivar uma gestão florestal mais responsável. Talvez a instalação de infraestruturas energéticas em territórios vulneráveis a incêndios motivasse investimentos na prevenção e no combate aos fogos, protegendo as populações que, ano após ano, sofrem com esta ameaça.

 


Bombeiros: Heróis ou Escravos?

"O trabalho voluntário de milhares de bombeiros representa uma gigantesca transferência de valor da sociedade para os plantadores de eucaliptos e a indústria da celulose."

Texto original:

https://www.publico.pt/2025/08/27/opiniao/opiniao/bombeiros-herois-escravos-2145117

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Todos os verões, os bombeiros voluntários são – e com razão – celebrados como heróis nacionais. São milhares de jovens e menos jovens dispostos a dar tudo, inclusive a própria vida, para defender comunidades inteiras contra os infernos de chamas que se tornaram a nossa realidade recorrente nos últimos anos. 

Nas zonas rurais, onde a floresta domina, os bombeiros sempre tiveram um papel central na vida local. Representam uma instituição de solidariedade, camaradagem e socialização da juventude. O bar do quartel é, em muitas vilas, o ponto de encontro social mais importante. Muitos jovens aderem aos bombeiros quase como se fosse uma versão comunitária dos escuteiros.

Mas esta imagem idílica não deve ocultar uma realidade bem mais preocupante: o trabalho voluntário de milhares de bombeiros representa, na prática, uma gigantesca transferência de valor da sociedade para os grandes beneficiários do modelo florestal português – os plantadores de eucaliptos e a indústria da celulose.

É claro que múltiplos fatores explicam a catástrofe dos incêndios: a negligência histórica do interior, o despovoamento, a falta de ordenamento e as alterações climáticas. Contudo, não se pode desligar a frequência e ferocidade dos fogos da expansão das monoculturas florestais destinadas à produção de biomassa e papel. Hoje, mais de um terço do território nacional está ocupado por floresta – uma área quase quatro vezes superior à do início do século XIX. Se fossem florestas diversas, com carvalhos e outras espécies autóctones resistentes ao fogo, o problema seria muito menor. Mas, em vez disso, temos imensos “desertos verdes” de pinheiro e eucalipto – ecossistemas pobres em biodiversidade, que secam o solo e alimentam a propagação das chamas.

Embora grande parte da terra não pertença diretamente às celuloses, é inegável que a vasta mancha de eucaliptais resulta da lógica produtiva do setor. Este funciona como um oligopsónio, em que poucos compradores controlam por completo o mercado e asseguram a acumulação dos lucros. Foram ainda estas empresas que, através de intenso lobbying, incentivaram a plantação de eucalipto entre pequenos e médios proprietários, bem como junto das autoridades políticas locais e nacionais – com destaque para a figura de Cavaco Silva.

Se somarmos todos os custos deste modelo – em perdas económicas, danos ecológicos, problemas de saúde, gastos no combate aos fogos e custos da replantação – fica evidente que esta economia do chamado “petróleo verde” não é viável nem sustentável. Ainda assim, empresas como a Navigator e a Altri apresentaram em 2024 cerca de 400 milhões de euros de lucro aos seus acionistas. A fórmula é antiga: privatizam-se os lucros, socializam-se os custos. Os custos aparecem sob a forma de fogos recorrentes, desertificação, seca e destruição do território.

Entretanto, a indústria e os políticos têm-se comportado como a indústria do tabaco no século XX: negando a realidade, manipulando narrativas e travando qualquer regulação séria. No meio desta desresponsabilização, quem tem assumido, de forma quase gratuita, o peso de controlar as “externalidades” deste modelo são os bombeiros – sobretudo os voluntários que, no interior, arriscam tudo para proteger o que o capital devasta.

Perante o atual cenário, é urgente reconhecer os Bombeiros como a força de trabalho de-facto das empresas de celulose em Portugal. Trata-se de uma mão de obra altamente qualificada – ou que deveria sê-lo – exposta a riscos extremos, mas que continua sem salário digno, sem garantias sociais adequadas e com escassos direitos sindicais e coletivos. Recebendo muitas vezes abaixo do salário mínimo, esta realidade configura uma forma clara de superexploração.

Esta prática repete-se em toda a relação do capitalismo com o Meio Ambiente: a natureza – e, com ela, todos os que dela cuidam, por vocação ou por necessidade – é considerada um recurso gratuito, desprovido de valor, embora seja indispensável. É o que se conhece como “trabalho reprodutivo”: aquele cujo valor o capital captura sem remuneração, apesar de ser essencial para a manutenção das condições de vida e de produção. O conceito, popularizado pelas abordagens feministas, como no trabalho de Maria Mies, aplica-se sobretudo ao trabalho não pago das tarefas domésticas e de cuidado, bem como ao labor invisível de imigrantes e de trabalhadores em condições análogas à escravidão. Raramente, porém, é aplicado a atividades vistas como “masculinas”, como a heroica missão de combater incêndios e cuidar da floresta. A reivindicação, no entanto, deve ser a mesma; reconhecer o devido valor da atividade económica.

Os quartéis, nesse sentido, são verdadeiras unidades de produção – as autênticas fábricas do papel – onde centenas de trabalhadores e trabalhadoras cumprem turnos exaustivos, inclusive noturnos. Encarar a realidade dessa forma não apenas reforça a legitimidade da organização coletiva e sindical dos bombeiros, como também fortalece a sua luta por salários dignos. Tais salários, aliás, deveriam ser financiados diretamente pelos lucros milionários da indústria da celulose e dos eucaliptais, e não pelos contribuintes através do Estado.

Além disso, reconhecer os bombeiros como trabalhadores centrais neste modelo produtivo coloca-os como aliados estratégicos da causa ecológica, na defesa de florestas diversas e resilientes. Um ambiente laboral mais seguro e a redução da carga de incêndios resultante seriam, assim, conquistas não apenas laborais, mas também ambientais e sociais.


Sunday, November 13, 2022

Imperialism Theories as a Perspective on the Human, Nature, Race and Gender

Draft paper presented at the Historical Materialism 2022 conference, SOAS London - 12 November 2022

Author: Jonas Van Vossole, Center for Social Studies, Coimbra University


This text is a preliminary exercise of reflection that seeks to develop and systematize Marx's approach of primitive accumulation and Rosa Luxemburg’s approach to imperialism as a tool to re-understand nature, race and gender as a relation between capital, the state and its boundaries. The text seeks to understand different forms of exploitation and discrimination with the background of value theory and thus a form of understanding of capitalism that facilitates unified forms of anti-capitalist struggle and solidarity.

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Since the dawn of capitalist modernity, the boundaries of civilization have been considered as “nature”. Within this modernist perspective, “nature” always functions as “the other”, the “non-human” or at least the “non-social”. Nature is conceived as opposed to society, natural sciences are opposed to social sciences, the natural body is opposed to the human spirit.

The opposition between human and nature is a dialectic opposition though, as humans are, appart from being opposed, themselves also part of nature. The separation between what is nature and what is human is itself a field of constant struggles and change.  

In most of the modern philosophy and social science, the state of nature functions as an abstract “original position”, a pre-civilized situation, upon which laws and theories about reality are projected.

This state of nature usually includes humans. Humans who are attributed only a “natural” dimension. Without a state and “modern” norms and institutions these humans are considered as uncivilized. They are often represented through stereotypes, as barbarian, indiginous, non-evolved, without culture or by contrast with an excess of culture. This is the state of nature of Hobbes in which violence, the homo-homini-lupus, reigned. A state of nature which could only be saved through the modern state and the European enlightened colonizer.

Such perspective is only the ideological reflection of the capitalist political economy which started to develop around the same time as when those theories became popular in the eighteenth and nineteenth centuries.

The divide between nature and labour tends to reflect the taqae,wo different forms of accumulation of wealth upon which capitalism as a socio-economic system came to be based.

Karl Marx in his Critique of the Gotha Program describes how both labour and nature are sources of wealth or use-values. It is, however, in the interest of capital to divide the categories of Labour and Nature in order for the accumulation process to be structured: Marx writes: 

“Nature is just as much the source of use values as labor, which itself is only the manifestation of a force of nature, human labor power. Insofar as man from the beginning behaves toward nature, the primary source of all instruments and subjects of labor, as an owner, treats her as belonging to him, his labor becomes the source of use values, therefore also of wealth. The bourgeois have very good grounds for falsely ascribing supernatural creative power to labor; since precisely from the fact that labor depends on nature it follows that the man who possesses no other property than his labor power must, in all conditions of society and culture, be the slave of other men who have made themselves the owners of the material conditions of labor. He can only work with their permission, hence live only with their permission.”

In Capital, Marx described the different forms of accumulation based on the exploitation of human Labour and the dispossession of nature, respectively as expanded and primary accumulation. The “normal” process of capitalist accumulation is called expanded accumulation and seems a purely economic process. It is the transformation of C into C+, through the exploitation of labour. Money is transformed into Capital when an initial amount of Money is used to acquire means of production, hire labour power, and eventually sell commodities through the circulation process. From the start its goal is to eventually achieve a larger amount of Money. To get this process started, however, an initial amount of Capital is necessary. The process of acquiring this initial sum is what Marx, in a polemic with the classical liberal economists, sarcastically unveiled as the “secret of primitive accumulation”. According to Marx, such primitive accumulation was based upon undisguised violence and bloodshed. In Capital, Marx writes:

The discovery of gold and silver in America, the extirpation, enslavement and entombment in mines of the indigenous population of that continent, the beginnings of the conquest and plunder of India, and the conversion of Africa into a preserve for the commercial hunting of blackskins, are all things which characterize the dawn of the era of capitalist production. These idyllic proceedings are the chief moments of primitive accumulation (p. 915).

Marx, however, saw this process of primitive accumulation rather as an initial or primitive phase of Capitalism.

Rosa Luxemburg, in her “The Accumulation of Capital” and her analysis of the phenomenon of imperialism, upgraded the status of this so-called “primitive” accumulation. Rather than approaching primary accumulation as a mere initial phase of the development of capitalism, Luxemburg’s theory of imperialism assumed that primary accumulation is a continuing process. This form of violent accumulation happens not only before but also parallel to expanded accumulation.

Luxemburg arrived at this conclusion from the analysis of the phenomenon of imperialism. At the dawn of the twentieth century, Imperialism became an ever more relevant phenomenon. The period was marked by the scramble for Africa since the Berlin conference in 1884 to the wake of the first world war. Luxemburg explained the logic of imperialism by the ever growing need for Capital to find new resources and markets. Capital needed to overcome the inherent obstacles or contradictions in the “normal” accumulation process - particularly during crises when those contradictions emerged. Value is thus continuously extracted both through exploitation AND dispossession. The latter occurred in the relation between capital and non-capitalist economies.

As you all know, Lenin, inspired by Hilferding, defined imperialism as the stage of capitalist development in which financial capital took over control of the state. Its goal was to guarantee the accumulation process beyond its national borders. The state is thus THE essential institution of imperialism. Its goal is to control non-conquered, wild, “natural” territories and resources: these included the scramble for the colonies, new trade routes and the development of slave plantations. 

For Luxemburg, the phenomenon of imperialism - through its relation to the state - is essentially linked with political struggles and strategies of the working class. In particular, the practical implementation of imperial logics by the state are a consequence reformism in the Labour movement and the incorporation of this movement into the bourgeois state. Reformism guaranteed some economic advantages and limited political emancipation in the form of liberal democracy for the organized working class in the imperialist countries. It was particularly beneficial for its bureaucratized leadership and the labour aristocracy. At the same time, it made the working class complicit with imperial phenomena of war and colonialism beyond its borders. In order to achieve social peace at the domestic front, the class conflict - expressed in declining exploitation rates - was literally exported to foreign affairs. Literally, Labour aristocracy colluded for a social agreement that exchanged expanded accumulation for accumulation by dispossession.

Nationalism, chauvinism and racism became important political devices to save capitalism. In Luxemburg there is thus not only an essential economic but also a political link between primitive accumulation and expanded accumulation, between the factor Labour and the factor Nature, as we will defend here further on! 

Over the last decades, various Marxist authors have been inspired by Luxemburg. Her approach was integrated into many new debates about Imperialism in Political Economy and International Relations. She inspired David Harvey's approach towards new imperialism, and the way how accumulation by dispossession became essential to understand the processes of privatizations and over-exploitation under neoliberlism. 

Here, I defend however that this relation between Imperialism, political strategy and the two forms of accumulation can be generalized as a much broader phenomenon. In which sense is the silenced agreement of Union leaderships with industrial waste not a similar cooptation in detriment to renewed accumulation by dispossession.

The phenomenon of primitive accumulation is, after all, not restricted to international relations. It happens in all new territories or scales capital enters. These include all non-conquered and wild territories and phenomena such as space, the amazon, genetics, the internet… But more importantly for this discussion today: also in feminine bodies and so-called “uncivilized” races and nations. 

Capital deals with the identities of gender and race in a similar way as it does to nature. In the historical development of bourgeois ideology, race and gender are literally “naturalized”. Within the framework of primary accumulation racialized people are pushed towards the fringes of civilization and humanity. They are robbed of their history and rationality. Animalistic characteristics are attributed to them. In the same way, women have long time been denied human rationality. Their essence being restricted to their natural body. Their social role has been pushed towards the “natural” activities of reproduction.

Plenty of authors have applied the schema of accumulation by dispossession to several of these “natural” fields. To name some examples: Maria Mies and Silvia Frederici have applied the idea of primary accumulation to the familiy economy and female bodies. Jason Moore has used it in the field of nature and climate. Nancy Fraser focussed on it in her debate with Dawson on the question of racial capitalism. Boaventura de Sousa Santos has developed the same logic in his paradigm on the Abissal line.

The difference between feminine and racialized bodies and other “natural” phenomena is, of course, that these are never fully, or only, “nature” - they are human Labour as well. The relationship between accumulation by exploitation and by dispossession is thus often complex, changing and dependent on political struggles.

Let us take the example of the position of a black male worker in the United States. Untill the abolishment of slavery; for Capital his existence was purely a natural resource; its value was extracted through a legal system based on pure violence. For the female enslaved worker, the lived reality was even worse, as besides the extracted value of work, she was reduced to a breeding machine of new slaves at the lowest possible cost. But the very possibility of understanding and organize resistance to these inhumane living conditions by these violated subjects, and their desire to change those things - the very essence of political praxis, is what makes them ultimately human. In contrast to other “nature”, they have the potential to be “labour” as well. Since the abolishment of slavery; the black worker is confronted with both regulated-labour and violent-nature dimensions of his or her life. While his or her labour is paid in the labour market - and can even over time have gained social and trade union rights, its value is kept low, - and super-exploitation occurs - through the continued structural violence in other aspects of life.

Boaventura de Sousa Santos explained this recently in one of his lectures on the Abissal line. The student living in the favela can have decent formal status and working conditions, but when he quits the job, he crosses back into nature when going home, confronted with police violence because of his skin colour and neighbourhood.

Ricardo Antunes, in his análises of working conditions of Uber workers during the Pandemic, aknowleged the same phenomenon: workers subject to both exploitation and expropriation in the same labouring proces.

Likewise the salaries of women are structurally kept low by their reproductive labour at home, the risk of domestic violence. They are confronted with their “nature” as they risk walking home alone at night. The nature-labour frontier crosses their reality at different aspects of their lives, depending upon political power relations.

None of the things described here is “new” to you, of course. But in the end, I believe a systematization of such approach provides a very useful overall framework to understand many different phenomena within the overall framework of value theory. It provides an advantaged position to understand race and gender for several reasons. First because it makes it possible to understand race and gender within the mechanism of commodity exchange and the capitalist political economy without abandoning the idea of class. And second because it provides a political framework to articulate those political struggles. It provides a framework for labour, feminist and anti-racist struggles, not just to work together in accidental alliances or political articulations. It structures alliances through the form in which the capitalist mode of production itself works.


At the same time, it is a critique of reformism. Thus it is a critique of liberal feminism and postcolonialism - like Luxemburg’s imperialism was a critique of the reformist SPD. It assumes that any improvement of living conditions or social emancipation within capitalism eventually tends to provoke a strengthening of imperialist logics towards its borders and a further expansion of primitive accumulation in other spheres and markets. It is thus a call for revolution. Luxemburg viewed international solidarity and anti-imperialism as essential in the anti-capitalist struggle. She claimed that the responsibility for this lies with the strongest and organized workers movements. In a similar way, it should be the primordial responsibility of organized labour to struggle for the emancipation of the subjects at the nature-labour border, while recognizing their own right to sovereignty. It thus also provides a critique of the male-chauvist and racist tendencies in bureaucratized labour.